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O
Potencial Universal da Língua
Portuguesa
no Século XXI
por
Luís
Aguilar
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Cabe-me a honra
e o privilégio de, hoje, Dia da Língua Portuguesa
e da Cultura na CPLP, apresentar-vos, com grande satisfação
e moderado regogijo, alguns dados sobre a última flor
do Lácio, feliz expressão do poeta brasileiro
Olavo Bilac; a doce e agradável língua, na opinião
açucarada de Miguel de Cervantes; a língua de
Camões, em homenagem ao célebre escritor lusitano
Luís Vaz de Camões, autor da epopeia Os Lusíadas;
a nossa magna língua portuguesa, como a nomeou Fernando
Pessoa.
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Introdução
A exposição bilingue Potencial
Económico da Língua Portuguesa / Potentiel Économique
de la langue portugaise, exibida pela
primeira vez na América do Norte por iniciativa conjunta
dos Estudos Lusófonos da Universidade de Montreal e
da Caixa Desjardins Portuguesa no edifício desta instituição
financeira, a 3 de junho de 2014, está de novo aqui
presente. A exposição resulta de um estudo encomendado
pelo, então, Instituto Camões (IC) em 2007,
estudo esse desenvolvido por uma equipa de investigadores
do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa
(ISCTE), cuja principal conclusão é a de que
as indústrias e os serviços em que a língua
Portuguesa é um elemento-chave representam 17% do Produto
Interno Bruto (PIB) de Portugal. Deu esse estudo origem à
publicação de um livro coordenado pelo dr. Luís
Reto intitulado O Potencial Económico da Língua
Portuguesa e à realização da presente
exposição com o mesmo nome, organizada pelo
Camões, Instituto da Cooperação e da
Língua.
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Não
vamos reproduzir os dados exibidos nos 17 painéis que
fazem parte da exposição que, esses foram sobejamente
apresentados pelos estudantes finalistas do Curso Estudos Lusófonos.
Vamos, isso sim, dar a conhecer alguns elementos complementares
provindos de vários estudos sobre a língua portuguesa
e tecer algumas considerações sobre as várias
comunidades de falantes de português e os oito séculos
de história da língua portuguesa escrita que ora
se comemoram também, tendo como referência o documento
Testamento de D. Afonso II, datado de 27 de junho de
2014. Parabéns a você, doce e agradável
língua, hoje mais salgada do que nunca, tanto é
o mar que ora separa as gentes dos países que a falam,
mas que se reúnem através do Português.
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Origens do português
A nossa magna língua portuguesa pertence à família
linguística indo-europeia, uma das grandes famílias
de línguas do mundo que compreende mais de 200 idiomas
dos grupos latino, germânico, eslavo, céltico,
indo-ariano, iraniano e ainda o grego, o arménio e
o albanês, por entre cerca de seis mil idiomas que integram
a galáxia das línguas do mundo, das quais duzentas
e vinte e cinco se falam na Europa.
A língua de Camões
é originária do latim vulgar lusitânico,
tendo o seu locus nascendi na velha Gallaecia
romana, andando a par com o galego, com o nome de galaico-português
e apenas no século XV ganha plena autonomia. Com efeito,
só depois do francês, do italiano, do romeno,
do espanhol, do catalão e de outras línguas
filhas da língua do povo do Lácio (região
da Itália Antiga, onde fica atualmente Roma) que, com
a queda do Império Romano definiram uma via linguística
independente, o português iniciou esse trajeto distintivo.
E não custa a aceitar que assim tenha sido, dado que
é de todas as filhas do Lácio a mais impertinente,
brejeira, rebelde, imprevisível, vadia, desregrada,
poética, características de uma filha mais nova
e que naturalmente a tornam mais propensa à liberdade
de criar, de inventar, de divergir e de inovar: Liberdade
de flexionar os agradecimentos, de fazer o plural no meio
da palavra, de colocar o pronome ora antes, ora depois ou
mesmo no meio do verbo, de conjugar infinitos e outras idiossincrasias
que, no entender de muitos, a tornam mais bela e, no
de outros, impura.
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Expansão da língua
portuguesa
Não fossem as Descobertas
Portuguesas e a língua de Camões seria hoje
falada por não mais de 20 milhões de pessoas.
Levada a dois terços do planeta pelos navegadores portugueses
nos séculos XV e XVI, na altura em que Portugal criava
o primeiro império colonial e comercial europeu, espalhou-se
pelo mundo, estendendo-se da costa africana à Ásia,
passando pelo Brasil, na América do Sul e Timor na
Oceânia. E se mais mundo houvera lá chegara.
O Português foi língua franca, nessa Época
de Ouro de Portugal, ocupando o lugar que hoje tem o inglês.
Fruto dessa expansão,
o português é hoje língua oficial de nove
pátrias (Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Moçambique, São Tomé e Príncipe,
Guiné Equatorial e Timor-Leste). É falado, ainda,
na antiga Índia Portuguesa, sobretudo em Goa, e em
Macau, na China, sem esquecer os cerca de vinte crioulos de
base lexical portuguesa resultantes do contacto do português
com outras línguas da Ásia Oriental, da América
Central e do Sul e de África e, como língua
materna ou segunda ou de herança, é falada pelos
membros das várias comunidades lusófonas de
emigrantes, num total de cerca de sete milhões e meio
de indivíduos, dos quais 4,5 milhões são
de origem portuguesa, espalhados pela Europa (França,
Alemanha, Suíça, Andorra, Luxemburgo, Espanha,
Inglaterra...), América do Sul (Venezuela, Uruguai
Paraguai...), África (África do Sul, Namíbia),
América do Norte (Estados Unidos e Canadá),
Ásia (Japão, China). No Canadá vivem
429.850 portugueses e luso-descendentes, segundo a Statistique
Canada, dos quais 289.763 no Ontário, 46.535 no
Quebeque e 20.335 na Colômbia Britânica. Há
ainda que referir os imigrantes brasileiros e angolanos, cujo
número não cessa de aumentar.
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A importância atual
da língua portuguesa no sistema mundial
Em consequência da expansão
portuguesa dos séculos XV e XVI, o português
é hoje uma das quatro línguas mundiais, a par
do inglês, do francês e do espanhol, é
uma das 12 línguas supercentrais da galáxia
das línguas do mundo, segundo o modelo gravitacional
proposto pelo linguista Louis-Jean Calvet, girando à
volta do Inglês, língua hipercentral, juntamente
com o alemão, árabe, chinês, espanhol,
francês, hindi, japonês, malaio, russo e suaíli;
é língua oficial de nove países, presentes
em quatro continentes, possui cerca de 250 milhões
de locutores (3,7 % da população mundial) espalhados
por cerca de 7,25 % da superfície continental da Terra,
é a língua mais falada no hemisfério
sul e a que em mais continentes se fala, juntamente com o
inglês, é a terceira língua europeia depois
do inglês e do espanhol mais falada no mundo, a quarta
língua materna, depois do mandarim, do inglês
e do espanhol, é a quarta língua com maior taxa
de crescimento na Internet, no período entre 2000 e
2012 (990%), depois do árabe (2501%), do russo (1826%)
e do chinês (1479%), é a terceira língua
mais usada no Facebook depois do inglês e do espanhol
e, também, a que registou, neste domínio, o
maior crescimento, passando do índice 6 para 59 (1000
%) enquanto o espanhol, por exemplo, passou de 61 para 143
(300%), é a 6ª língua do mundo mais utilizada
nos negócios, depois do Inglês, do mandarim,
do francês, do árabe e do espanhol, é
uma língua de trabalho da União Europeia (EU),
do Mercosul, da Unidade Africana (UA), da União Latina
(UL) e, mais cedo do que tarde, tornar-se-á num dos
idiomas de trabalho da Organização Mundial do
Turismo e, sobretudo, da Organização das Nações
Unidas (ONU). E é, como havia predestinado Fernando
Pessoa, uma das poucas línguas potencialmente universais
do século XXI.
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Mas, será que a língua
portuguesa, face aos dados que acabamos de revelar, ocupa
o lugar que lhe é devido no espaço linguístico
mundial? Claramente que não ocupa. Com efeito, ainda
que o português seja uma língua mundial, que
o alemão, o italiano ou o russo não são,
estas línguas têm uma importância superior
à língua de Camões, no ranquingue das
línguas, estabelecido pelo BCL (Barómetro Calvet
das Línguas) de 2012, em que o português ocupa
apenas a 9a posição, atrás do italiano
(8 a), do holandês (7a), do japonês (6a), do russo
(5a), do alemão (4a), do francês (3a), do espanhol
(2a) e do inglês (1a), entre mais de quinhentas línguas
analisadas. Mas, prevê-se que continue a subir neste
ranquingue, uma vez que saltou já do 16o lugar, que
detinha no início do século, para o 9o que hoje
ocupa.
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Homenagem àqueles que por
feitos valerosos nos domínios da língua portuguesa
e das culturas lusófonas se vão da lei da
morte libertando mas não da lei da ingratidão
Nos painéis 7, 8 e 9 da exposição
aqui presente exibem-se 71 caras-símbolo da língua
portuguesa. Muitos visitantes se surpreendem com a ausência
de algumas personalidades que, ironicamente, são as
que mais puseram o Português e a Lusofonia na ribalta
dos universos linguístico e lusófono: Marquês
de Pombal, Gonçalves Viana, José Apparecido
de Oliveira, Eduardo Lourenço e Agostinho da Silva,
para já não falar de Chico Buarque ou de Sophia
de Melo Breyner Andresen.
Aproveitamos esse esquecimento para lembrá-las e, consequentemente,
homenageá-las.
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Painéis
com 71 personalidades lusófonas de projeção
global.
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Em
primeiro lugar, o Marquês de Pombal - o sempiterno esquecido
mas, paradoxalmente, omnipresente em todas as grandes realizações
portuguesas - que com a Lei do Diretório de 3 de
maio de 1757 impôs a todos os habitantes do Brasil que falassem
obrigatoriamente a “Língua do Príncipe”
ou seja o português, sendo punidos, presos ou expulsos os
que não obedecessem. Para velar pelo cumprimento da lei,
nomeou Francisco Mendonça Furtado, seu irmão. O
Marquês de Pombal cacabaria por expulsar do território
brasileiro os jesuítas que persistiam na utilização
do Nheengatu, uma língua derivada do tupi-guarani, considerada
a língua geral do Brasil e utilizada pelos índios,
jesuítas e colonos. Na passada, aproveitou para, com a
sua astúcia e manha política, aumentar o território
brasileiro em mais de 30%, destacando-se o Estado de Santa Catarina
para onde enviou açorianos para povoar o território,
a revés do Tratado de Tordesilhas. Não fora esta
política pura e dura do Marquês de Pombal e hoje
não faríamos parte de uma comunidade linguística
com cerca de 250 milhões de locutores e o Brasil não
seria mais do que mais um país da América Latina
e não o gigante país continente que é hoje.
Mas a ingratidão essa não tem tamanho.
Gonçalves Viana é
a segunda figura esquecida. Levou a cabo não a reforma
como se diz, mas a revolução ortográfica
do português de 1911, época em que cada um escrevia
como bem queria e inventava como bem soía, dela expurgando
a pseudoetimologia, por um lado e, por outro disciplinou a escrita
ao mesmo tempo que definia critérios fonológicos
para a aproximar da fala.
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Agostinho da
Silva, o sempiterno esquecido pode bem considerar-se o percursor
da lusofonia. Lutou pela liberdade do Homem e do Espírito
tanto em Portugal como no Brasil, em África e Ásia.
No mesmo espírito universalista e visionário de
Agostinho da Silva, há que lembrar, num dia em que se
invocam as culturas da CPLP, Apparecido de Oliveira, por muitos
considerado "o pai da CPLP", um grande político,
um homem de visão, um homem de cultura e um homem fraterno
como a ele se referiu Mário Soares, outra das caras ausentes
nos painés já referidos.
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O Português no Oceano
da Lusofonia
Fernando Pessoa, para quem navegar
é preciso dirige o leme para o devir: esta língua
que amamos é o som presente desse mar futuro.
Ou, parafraseando Baticã Ferreira, podemos bem dizer:
Olhai Lusófonos, o Mar, presente em todas as regiões
e países lusófonos, tem influência singular
sobre todos vós. E ousamos dizer, apanhando a
vaga de Maria José Maya, presidente da direção
da Associação 8 Séculos de Língua
Portuguesa, na cadência destes mares que nos embalam
e nos fazem chegar os ecos e a riqueza de múltiplos
sotaques e culturas: Falemos o português com sal
ou com açúcar ou mesmo com pimenta e deixemos
as consoantes assobiar em Portugal, cantar em África
e dançar no Brasil, porque a república do
português não tem uma capital demarcada. Não
está em Lisboa, nem em Coimbra; não está
em Brasília, nem no Rio de Janeiro. A capital da língua
portuguesa está onde estiver o meridiano da cultura,
sábias palavras do linguista brasileiro Celso Cunha.
Tão sábias quanto as de Mari Alkatiri, ex-primeiro-ministro
de Timor-Lorosae, um dos mais jovens países do mundo:
Neste mundo global deve haver um esforço em definir
novas fronteiras globais, fronteiras da língua e da
cultura. Como meia ilha que é, Timor-Leste ganha com
a língua portuguesa essa fronteira global e ampla,
que atravessa oceanos e une continentes. Com a língua
portuguesa deixamos de nos sentir apenas como esta ilha para
nos sentirmos parte deste mundo global. De resto, como
há já algum tempo, a este propósito,
lembrou Jorge Couto, ex-presidente do Instituto Camões,
a língua portuguesa, dada a sua dispersão
continental, não poderá aspirar a formar um
bloco político ou económico, mas, sim, um bloco
em que a língua e os laços afetivos, históricos
e culturais constituirão o cimento. Esses três
elementos língua, identidade cultural e afetividade
constituem um poderoso antídoto no mundo globalizado
de hoje, que não é suscetível de ser
transformado em mercadoria e que pode constituir para todos
nós, dispersos pelos quatro continentes, um elemento
extremamente importante de afirmação, de identidade
línguística e cultural.
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Conclusão: O Português
é uma língua de e com futuro
Considerando os dados que supramencionámos
o Português tem potenciais universais para vir a ser
uma das línguas internacionais do século XXI,
mas isso só acontecerá quando em língua
portuguesa mais ciência se fizer, quanto mais expressiva
for a cultura criada, quanto mais arte for produzida, quanto
mais golos lusófonos se marcarem em campeonatos
europeus africanos e mundiais, quando mais ensino do idioma
for ministrado a estrangeiros, quando os países integrantes
da CPLP se afirmarem nas relações económicas
internacionais. São estes e outros índices que
podem vir a colocar a nossa magna língua como língua
internacional que neste momento está longe de o ser,
factor essencial para que falantes de outras línguas
necessitem e queiram aprender a falar Português. Com
efeito, a língua portuguesa, ainda que vá, soberba
e altiva … até aqui tem andado baixa e sem louvor,
culpa é dos que a mal exercitaram. Esquecimento nosso
e desamor, como dizia já António Ferreira
no século XVI.
Não temos dúvidas
de que a causa da língua portuguesa representa um grande
desígnio nacional. Se o não soubermos agarrar,
estamos verdadeiramente a falhar uma responsabilidade primordial
do presente, a desperdiçar uma enorme riqueza que recebemos
do passado e a descuidar o futuro, palavras proferidas,
recentemente, por Jorge Sampaio, ex-Presidente da República
de Portugal, que pede com um sentido certo de urgência
um maior investimento na internacionalização
do Português, e põe o dedo na ferida como já
o houvera feito quando aqui esteve no Canadá em 2000:
é preciso realizar um grande esforço para que
a língua portuguesa seja efetivamente considerada como
opção integrada no currículo de um número
cada vez maior de países. Uma ferida em que ninguém
quer tocar e as instituições a quem cabe tal
desígnio preguiçam, por razões que temos
dificuldades em compreender e muito menos aceitar.
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Consulado-Geral
de Portugal
em Montreal
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