Uma Pesquisa Orientada na Rede

11

Q u e s t ã o
Como todas as línguas, o Português enfrenta o problema da penetração do idioma estrangeiro, problema que varia de importância com, entre outras coisas, a realidade social dos países que a têm como língua oficial. Ainda que, tendo em conta que defender o idioma não é imunizá-lo dos contributos e incorporações necessários à sua renovação, a língua portuguesa padece actualmente do excesso de estrangeirismos e do relaxamento das normas para inclusão de palavras e expressões no vocabulário. Exemplifique com situações concretas os excessos referidos e aponte a forma de evitá-los.


R e s p o s t a


Adoptemos uma posição de bom senso entre os dois extremos em que muitas vezes se debate este problema da nossa língua. De um dos lados os laxistas que tudo permitem, deixando entrar livremente todo o tipo de estrangeirismos a maior partes das vezes desnecessários e na tremenda maneira como aceitam neologismos, sem mesmo os aconchegar nas suas mantas, como noz diz, Jorge Silva Melo. Do outro lado os polícias da língua e da gramática que, a pretexto de impedirem a invasão dos termos espúrios e antiportugueses oriundos do inglês e do francês apresentam estas maravilhas de deleite ridículo.

Pizza - disco de massa com molho de tomate e queijo. Em vez de montra, escaparate (já agora rima com o linguístico disparate). Em vez de Cambridge - Cantabrígia. Em vez de Oxford, Oxónia e Rabat daria Rebate.

E que falar da influência do vocabulário português no léxico japonês (4000 palavras).

Da presença muçulmana na antiga Lusitânia, herdamos centenas de palavras, como arroz, açúcar, azeite, alfândega, almirante, refém e oxalá. Dos germânicos, em especial suevos e visigodos, recebemos guerra, espiar, roubar, estaca, ganso, luva, trégua, e, mais recentemente, balcão, blindar, bordar - assim como numerosos nomes de pessoas e lugares, a exemplo de Fernando, Rodrigo, Álvaro, Gonçalo, Guimarães e muitos outros. Poderíamos acrescentar a essa lista milhares de vocábulos que aproveitamos do francês, inglês, italiano, chinês, entre outros.

É verdade que da presença índia e africana resultou um português modificado na pronúncia e no léxico. Por meio da língua geral, o tupi transmitiu ao português numerosas palavras, ainda hoje correntes - abacaxi, arapuca, caipira, caraíba, guariba, jacaré, cambembe -, além de nomear quase toda a fauna. Algumas são músicas para os ouvidos, como o verbo cutucar e o substantivo sambaqui que designa os sítios arqueológicos do litoral. Os escravos contribuíram com palavras e expressões como batuque, caçula, cafuné, fulo, maxixe, mocambo, moleque, samba e, para não esquecermos da escravidão e das lutas dos negros, sabalangá, senzala e quilombo. São palavras amenas, suaves de agradar o céu-da-boca.

Paul Teyssier, um lusitanista recentemente desaparecido, na sua Histoire de la langue portugugaise, conta que no final do século XVIII, o brasileiro já aparece no teatro português como um personagem com peculiaridades da sua fala. Um exemplo que ele apresenta é a generalização do uso da forma de tratamento que até hoje se mantém no Brasil, mas que em Portugal era empregada apenas familiarmente: o "você", redução de "voismicê", que por sua vez deriva de "vossa mercê". Além disso, quando Pombal decretou a obrigatoriedade do uso do português no Brasil, os falantes brasileiros já haviam incorporado diversas palavras de origem indígena e africana no seu vocabulário.

Muitos nomes de plantas, frutas e animais brasileiros têm origem no tupinambá. Alguns exemplos são abacaxi, araticum, buriti, caatinga, caju, capim, capivara, carnaúba, cipó, cupim, curió, ipê, imbuia, jaboticaba, jacarandá, mandacaru, mandioca, maracujá, piranha, quati, sucuri e tatu. A toponímia, ciência que estuda a origem dos nomes de lugares, também revela um grande número de palavras indígenas na fala do brasileiro: Aracaju, Avaí, Caraguatatuba, Guanabara, Guaporé, Jabaquara, Jacarépaguá, Jundiaí, Parati, Piracicaba, Tijuca, etc. A influência indígena também acabou por propiciar a criação de expressões idiomáticas, como "andar na pindaíba" e "estar de tocaia", que são marcas linguísticas de uma cultura específica.

Os africanos do grupo banto e ioruba deixaram um legado próprio na cultura do nosso país. A culinária afro-brasileira tem o abará, o acarajé e o vatapá; e o candomblé tem orixá, exú, oxossi, iansã. O quimbundo, língua falada em Angola, emprestou ao português do Brasil palavras do vocabulário familiar, como caçula, cafuné, molambo e moleque. Termos que expressavam o modo de vida e as danças dos escravos, como senzala, maxixe e samba, também se incorporaram no nosso léxico.