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O
encontro com as literaturas dos
países lusófonos foi uma oportunidade,
para mim de provar e saborear a riqueza das culturas lusófonas.
Literaturas escritas na mesma língua, mas de cores variadas,
consoante o país, a sua cultura e as suas tradições,
desenham-se no horizonte literário um arco-íris na
língua da Lusofonia: o Português.
As
antigas colónias portuguesas de África e da Ásia
que alcançaram a liberdade há mais ou menos 25 anos
provocaram a emergência de escritores e poetas de expressão
portuguesa, autores de todos os países lusófonos que
publicam obras na língua de
Saramago, Jorge
Amado, Pepetela,
Mia
Couto, Craveirinha,
Eugénia Neto.
.
Estes autores são representantes da cultura específica
do país que habitam e de onde escrevem. Alguns são
autores de importância maior para as literaturas de expressão
portuguesa: a lusografia.
Todos
os autores que seleccionámos são escritores contemporâneos.
Alda
Espírito Santo (1926), é a primeira poetisa
publicada de São Tomé, autora de uma poesia, que expressa
o protesto e a luta, intimamente associados às aspirações
do seu povo e à liberdade, é a escritora mais antiga.
Germano
Almeida (1945) advogado, jornalista e romancista premiado
de Cabo Verde, desmascara a hipocrisia na sociedade cabo-verdiana
com as armas do humor, que, pela lupa satírica, se transforma
num paradigma de qualquer sociedade. Luís Cardoso (1955?)
de Timor-Leste é considerado o primeiro romancista timorense.
Abdulai
Sila(1958)
escreveu o primeiro romance guineense. O seu romance Eterna Paixão
descreve a transformação pós-colonial da sociedade
guineense. Pepetela
(1941) angolano, fez uma opção política
que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua numerosa
obra (uma dezena de romances), tornando-se no narrador por excelência
da História de Angola. José
Eduardo Agualusa (1960), angolano também, é
o exemplo, por excelência, da escrita em crioulo português.
O seu mais recente romance, Nação Crioula (1997),
debruça-se sobre a história e a sociedade crioula
e constitui uma afirmação de raízes que, contém
em si, um projecto de futuro e de valores culturais angolanos e
das culturas africanas. A sua escrita está tão enraizada
na inovação semântica e estilística que
as literaturas africanas têm imprimido à língua
portuguesa.
Mia Couto (1955), a voz mais destacada na literatura
moçambicana, é o autor de língua portuguesa
que maior novidade e frescura imprimiu à linguagem na última
década. Mia Couto faz prova da sua capacidade imagética
na recriação da semântica das palavras, através
de um jogo neológico que irmana significados e dilata-os
para criar uma atmosfera plena, de sonho e prenhe de possibilidades
de leitura.
Depois
desta panorâmica pelos autores que se expressam pela prosa,
chegamos à poesia.
A poesia é caracterizada por ser uma expressão íntima
e pessoal, escrita, no entanto, numa estrutura artística
que estiliza as experiências pessoais, para as levar a um
nível mais elevado e alcançar valores universais da
humanidade. A experiência única torna-se numa verdade
geral, numa metáfora de vida ou mesmo num mito.
Existe
um Sítio de poemas na Rede, posto à nossa disposição
pelo Senhor Joaquim Falé, que começou a mandar de
Maputo em 1996 artigos e poemas de autores africanos para a lista
pt-net@inesc.pt. Este apreciador de poesia e os seus amigos mandaram
pelo menos duzentos e cinquenta poemas escolhidos por entre obras
de poetas ou de colecções de poesia, muitas
delas recentemente publicadas.
Embora os poemas sejam só uma selecção de poesia
africana, o mandador Falé escolheu obras de uma grande variedade
de poetas e de temas muito diversos. Esta colecção
compreende cerca 100 poetas (mas somente 8 são femininos)
dos países africanos, antigas colónias portuguesas.
A maioria dos poetas desta colecção de poemas são
angolanos (36) e moçambicanos (36). Bem representado está
Cabo Verde com 18 poetas, Guiné-Bissau com 3, e São
Tomé e Príncipe com 4. Incluídos estão
também alguns poetas portugueses com ligações
a África ou, aí radicados.
Viajando
pela poesia da África lusófona, vêem-se os mesmos
temas em cada país. Organizei os poemas segundo categorias
de sete temas gerais, tais como:
1)
Sofrimento
2)
Esperança
3)
Ser Africano
4)
Vida Política (Patriotismo, Guerra Civil)
5)
Família e Natureza
6)
Amor e Saudade
7) Cultura
(Lendas, Arte Poética, Filosofia)
É
claro que muitos poemas tratam mais do que um tema. Combinam, por
exemplo, o sofrimento com a esperança "num amanhã
melhor", ou fazem interagir o amor da mulher negra com o seu
amor por África.
Conclusão
Chegamos
ao fim da nossa viagem pela poesia lusófona da África
e perguntamo-nos em que medida esta poesia é uma contribuição
para a definição da Lusofonia. A poesia africana enriquece
a língua e a cultura portuguesas com o encanto de África:
Por exemplo nas descrições de variadas manifestações
culturais, de paisagens tropicais com animais como zebras, tigres,
aves exóticas; com os retratos de vida familiar e da natureza
que participa nesta vida e que é o lugar dos espíritos
pagãos, com retratos dos poentes em cores sensuais e sedutoras,
e sobretudo na interpretação de África enfeitiçada,
do universo mágico da metáfora e do símbolo.
A poesia africana enriquece a língua portuguesa com um vocabulário
específico. Os poetas recriam e manifestam nesta língua
os ritmos das danças africanas, como a batuque, a massemba,
a rebita, e os requebros das mulheres negras. Os poetas encantam
a língua portuguesa com o estilo e ritmos africanos e com
nomes e palavras não-traduziveis e não-traduzidos.
Esta poesia de África, enquanto enriquecedora e participante
na experiência da língua da lusofonia, não mostra
nenhuns laços culturais com Portugal. Pelo contrário.
A poesia africana cria uma cultura de identidade que é só
africana. O paradoxo é que precisa da língua portuguesa,
a língua do opressor, para se libertar desta influência
e da identificação com ele.
A poesia de África manifesta a sua própria identidade
na dignidade do seu sofrimento, e na sua paciência e perseverança.
Diz-se que os poetas compõem e tecem verdades de fibras de
essência humana, além da história, além
da vida diária. Ou, talvez, digamos (com João Maimona)
que os poetas revelam e libertam estas verdades. A poesia medita
sobre os valores humanos, a poesia é o sonho (Alda Espírito
Santo) com a "mais bela de todos as lições -
humanidade." A Lusofonia, na poesia de expressão portuguesa,
participa e compartilha esse sonho.
Cem
Fotos de África
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