A língua é, antes de tudo o mais, vivida e experimentada
e não uma aprendizagem abstracta.
Bernard Dufeu
Pode compreender-se como o indivíduo destaca da sua experiência
os conceitos, as regras e os princípios
que orientam as suas acções em situações
novas
e como ele modifica os conceitos para melhorar a eficácia.
David
Kolb
Adoptámos, para o ensino de uma língua estrangeira,
o Modelo de Aprendizagem Experiencial proposto por Kolb e
Fry (1975), que prevê o desenvolvimento do processo de ensino/aprendizagem
em quatro etapas, cada uma delas com características próprias
e imprescindíveis à aquisição de competências
linguísticas. Parece-nos, nesta matéria, de toda a utilidade
passar pelas quatro etapas estabelecidas neste modelo.
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A
experiência concreta corresponde à primeira etapa
do ciclo de aprendizagem, em que o indivíduo se motiva
para a aprendizagem de uma língua estrangeira, a partir
da sua própria experiência de vida e a percepção
subjectiva que tem da língua estrangeira que deseja
aprender. A acumulação de experiências
não basta para que uma pessoa aprenda porque, nesse
caso, limita-se a repetir mais ou menos aquilo que conhece,
acabando, grande parte das vezes, por desmotivar-se se a experiência
concreta for a única etapa do processo, como muitas
vezes acontece. Os professores têm a tendência
para submeter os indivíduos a uma gama variada de experiências
que se sucedem umas às outras, sem ligação
entre elas e sem continuidade. Para que a experiência
concreta adquira um valor pedagógico torna-se necessário
fazer uma retroacção sobre essa mesma experiência
concreta, onde a observação, a análise
e a reflexão crítica se afiguram decisivas.
Entra-se, assim, na segunda etapa do ciclo de aprendizagem. |
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A
observação reflexiva, a segunda etapa do ciclo
de aprendizagem, proporciona o confronto das experiências
concretas do estudante com as dos outros companheiros, o que
permite o distanciamento crítico dessas mesmas experiências,
conferindo-lhes objectividade. Contudo, a aprendizagem não
se compadece nem com a acumulação de experiências,
nem com um aglomerado sucessivo de objectivações
de experiências concretas, uma vez que estas necessitam
de uma integração. É então que
começa a terceira etapa, relativa à conceptualização
abstracta. |
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Na
etapa designada por conceptualização abstracta,
os estudantes são levados, naturalmente, a estabelecer
as ligações possíveis entre os diversos
aspectos linguísticos da sua língua materna
com os da língua estrangeira que estão a aprender.
Tornam-se, assim, simultaneamente mais conscientes das estruturas
da sua língua materna e da língua de aprendizagem.
Isto implica o despertar da compreensão de certos
aspectos da linguagem e do interesse e curiosidade a ela relativos.
Assim, o professor poderá discutir com os estudantes
o que é a linguagem, como característica fundamental
e distinta da espécie humana, a sua estrutura, o modo
como se apreende e como se utiliza, em que é que uma
língua difere de uma outra (Blondin et al, 1998,
p.32). Passa-se assim à quarta e última etapa
do ciclo de aprendizagem: a experimentação activa.
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A experimentação
activa, geralmente a última etapa do processo de
aprendizagem, caracteriza-se pela formulação
de hipóteses e pela verificação. Em
acções posteriores, o estudante de uma língua
estrangeira confronta uma nova concepção sobre
um determinado facto com novas experiências, testando
a sua eficácia, identificando os seus pontos fortes
e fracos. Esta etapa do processo de aprendizagem refere-se
ao transfert dos saberes e das capacidades adquiridas
a novas situações do real, sem o qual qualquer
aprendizagem parece não ter sentido. Com efeito,
uma aprendizagem conseguida é uma aprendizagem transferível
(Develay, 1994, p.18).
E todo o ciclo
é retomado.
Podemos representar o processo de aprendizagem centrado na
experiência e na resolução de problemas,
da seguinte maneira: |
UM
MODELO DE APRENDIZAGEM EXPERIENCIAL
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EXPERIÊNCIA
CONCRETA
Experiências pessoais, histórias de vida, passados
ou actuais, expectativas futuras, dilemas, confrontos problemáticos,
fornecem a matéria prima para as aprendizagens linguísticas
ulteriores. Parte-se daquilo que o aprendente conhece já,
através do seu saber de experiência e da sua motivação
para a aprendizagem de uma língua estrangeira. |
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| EXPERIMENTAÇÃO
ACTIVA
Aplicação prática dos conhecimentos linguísticos,
reflectidos, explicados e generalizados. Acção
centrada, por um lado, na realização de exercícios
práticos e, por outro, na comunicação e
nas relações interpessoais, através do
jogo de papéis e do trabalho em grupo, etc. |
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OBSERVAÇÃO
REFLEXIVA
Pesquisa sobre a realidade. Partida à descoberta do
funcionamento da língua, pela leitura, pela escuta
activa, pela consulta de dicionários, etc. Identificação
das características linguísticas, das normas
gramaticais, das particularidades vocabulares, etc.
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CONCEPTUALIZAÇÃOABSTRACTA
Formação de conceitos abstractos sobre a experiência
de aprendizagem da língua, a partir da reflexão
que dela se fez. Explicação de realidades linguísticas
semelhantes. É a síntese de um debate ou da uma
troca de opiniões, sobre um determinado assunto de comunicação,
que se caracteriza pelo estabelecimento de um tronco comum de
ideias que todos podem subscrever. |
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O
processo que acabámos de descrever esquematicamente sobre
as várias etapas de ensino e aprendizagem, em geral,
e de uma língua estrangeira, em particular, é
aqui entendido como ideal. Na prática, sabe-se que tanto
o professor como o estudante tem tendência a privilegiar
uma das etapas e a evidenciar dificuldades noutras.
Temos podido verificar que cada pessoa tem tendência a
queimar etapas do ciclo de aprendizagem que acabamos de descrever.
Uns mais experimentalistas, partem directamente da experiência
concreta para a experimentação activa, ignorando
as etapas relativas à observação reflexiva
e à conceptualização abstracta. Outros,
pelo contrário, quedam-se pela observação
reflexiva e pela conceptualização abstracta, não
passando à prática aquilo que aprendem.
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Compreender
o que se privilegia no processo de aprendizagem de uma língua
estrangeira é, antes do mais, conhecer-se melhor e identificar
as forças e as fraquezas do seu próprio processo natural
de aprendizagem; é, ao fim e ao cabo, fazer o diagnóstico
da sua própria situação, enquanto estudante de
uma língua estrangeira. A identificação das suas
potencialidades e a remoção das dificuldades de aprendizagem
encontram muitas vezes obstáculos, derivados, geralmente, de
problemas predominantemente psicológicos, autênticas
barreiras ao desenvolvimento de cada indivíduo, nas múltiplas
facetas que o compõem e que o diferenciam dos outros. Certa
resistência que se manifesta na crença de que se trata
de um passado dominador e dominante que tem como consequência
a negação da pessoa (Haramein, 1994, p. 124).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
AGUILAR,
Luís (2003). Comunic-Acção para
o Ensino e Aprendizagem do Português, Língua Estrangeira.
Montreal: Livrexpressão.
BLONDIN, Christiane
et al (1998). Les langues étrangères dès
l’école maternelle ou primaire. Paris-Bruxelles:
De Boeck.
DEVELAY, Michel
(1994). Peut-on former les enseignants?
Paris: E.S.F.
DUFEU, Bernard
(1996). Les approches non conventionnelles des langues
étrangéres. Paris: Hachette.
GATTEGNO, Caleb
(1972). Ces enfants: nos maîtres ou la subordination
de l’enseignement à l’apprentissage.
Neuchatel: Delachaux & Niestlé.
HARAMEIN, Ali
(1989). Savoir académique et pratique professionnelle:
une interaction sans acteurs. Actes du 2e congrès
des sciences de l’education de la langue française du
Canada. Sherbrook: C.R.P. Faculté d’éducation,
Université de Sherbrooke
KOLB, David &
FRY, Ronald (1975). Toward an Applied Theory
of Experiential Learning. In COOPER, Cary
Lynn: Theories of Group Processes. London-Toronto:
John Wiley and Sons.
KOLB, David, RUBIN, Irwin &
McINTYRE, James (1978). Psicologia Organizacional.
São Paulo: Atlas.
McCLELLAND. David
C.,(Ed.) (1955). Studies in Motivation.
New York: Appleton-Century-Croft.

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