Faro, 10 de Setembro de 2001
Caro
Amigo Luís,
Tenho saudades tuas. Tens vindo cá? Nunca dizes
nada... gostava de te ver, te contar o processo que
deu azo a este livro: como afinal tudo decorreu. Gostava
de conversar, pronto!
Eu e a Aida Fonseca funcionámos a 100% na escrita
a 4 mãos - aprendemos imenso, falámos
horas e horas... foi muito interessante. E achamos
que o capítulo de “Aqui e Agora”
foi só um cheirinho em relação
ao que podemos explorar e escrever e investigar mais
e mais.
Continuas trabalhador? Tens ido à Califórnia
lá ter com os “grandes”? Que bom.
Que orgulho tenho de ti!
A nossa música também aqui segue. Espero
bem que não tenhas mudado de casa...
A minha relação com a “Século”
está “estabilizada”, nem sei bem
descrevê-la. O sentimento que tenho já
não é de orgulho como foi durante tanto
tempo. Mas ao mesmo tempo a sensação
de que podia ser melhor não me larga.
Enfim vou trabalhando no que sei. Vou explorando outras
hipóteses. Vou contando, inventando, criando
noutros contextos...
Lembro-me de ti centenas de vezes mas não sei
tão pouco se tenho os teus contactos correctos.
Aqui vai um presente: os produtos em que participei
em 2000.
Beijos
da
Margarida
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19
de Março de 1920, às 9 da manhã
Meu
querido amorzinho:
Parece
que foi remédio escrever-te (...). A seguir fui-me
deitar, sem esperança nenhuma de adormecer, e
o facto é que dormi umas 3 ou 4 horas a fio -
pouca cousa, mas não imaginas a diferença
que me fez. Sinto-me muito mais aliviado, e, embora
a garganta ainda arda e esteja inchada, o facto de o
estado geral ter assim melhorado quer dizer, creio bem,
que a doença vai passando.
Se as melhoras se acentuarem rapidamente, talvez ainda
hoje mesmo vá ao escritório, mas sem me
demorar muito; e então eu próprio te entregarei
esta carta. Espero aí poder ir; tenho certas
coisas urgentes a tratar que posso dirigir aí
do escritório, embora não vá eu
em pessoa, mas que aqui me é impossível
tratar.
Adeus, meu anjinho bebé. Cobre-te de beijos cheios
de saudade o teu, sempre, sempre teu
Fernando
In
Cartas de Amor de Fernando Pessoa,
organização de David Mourão-Ferreira.
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