Valter Hugo Mãe
(Foto de Miguel Félix)

Círculo de Leitura Europeu - Portugal

l'apocalypse des travailleurs
(o apocalipse dos trabalhadores)

Reportagem de Luís Aguilar


(Fotos vitália Rodrigues)

Realizou-se no passado dia 11 de dezembro, no Carrefour des arts et des sciences da Universidade de Montreal, mais uma sessão do Círculo de Leitura Europeu, integrado este no projeto Lisez L’Europe. Esta sessão contou com a presença do escritor Valter Hugo Mãe, que apresentou a sua obra, O apocalipse dos trabalhadores, recentemente traduzida para francês, L'apocalyse des travailleurs.

(Foto Jessica Ferreira)
Numa sala repleta de gente, Vitália Rodrigues, em nome do grupo Lisez L'Europe, no papel de mestre de cerimónias, deu a palavra aos vários atores e participantes da sessão. Referiu que o Círculo de Leitura Europeu se reúne todos os meses para discutir uma obra europeia contemporânea de relevo de um autor dos países membros: Alemanha, Áustria, Catalunha, Espanha, França, Itália e Portugal. Cada país é, geralmente, representado por um instituto e ou consulado. As participações de Portugal nas várias iniciativas do Projeto Lisez l'Europe contam com: Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal e Consulado-Geral de Portugal em Montreal.
(Foto Jessica Ferreira)
A sessão começou à hora prevista com as palavras de boas-vindas do diretor do Departamento de Literaturas e Línguas Modernas da Universidade de Montreal, Juan-Carlos Goddenzi, que realçou o empenho do departamento que dirige neste tipo de iniciativas, com o prazer acrescido de contar com a presença de um grande escritor europeu e um elevado número de pessoas para, com ele, trocar impressões literárias, à volta de um apocalipse ficcionado dos trabalhadores.
(Foto Jessica Ferreira)

Luís Aguilar, professor responsável pelos Estudos Portugueses e Lusófonos da Universidade de Montreal e docente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, animou o debate e apresentou o escritor, que considerou ser uma das grandes revelações da literatura portuguesa do pós Revolução dos Cravos de 1974, cujos romances fazem com que a língua portuguesa renasça. Valter Hugo Mãe, nascido em Angola em 1971, viveu desde sempre em Portugal, onde se diplomou em Direito e pós graduou em Literatura Contemporânea Portuguesa, é hoje um dos maiores escritores portugueses, um "tsunami" literário como lhe chamou o nosso Nobel, aquando da atribuição do Prémio José Saramago em 2007, pelo seu primeiro romance, O Remorso de Baltazar Serapião. Em 2012, Valter Hugo Mãe foi, igualmente, o vencedor do Grande Prémio Portugal Telecom para o melhor romance, A Máquina de Fazer Espanhóis. Para além das obras citadas, o escritor publicou mais quatro romances (O Nosso Reino, O Apocalipse dos Trabalhadores, O Filho de Mil Homens e A Desumanização). As suas obras estão traduzidas em diversas línguas. Tem vários poemas publicados em Contabilidade e quatro livros ilustrados de histórias para a infância (O Rosto, As Mais Belas Coisas do Mundo, A História do Homem Calado e A Verdadeira História dos Pássaros). Escreve artigos em diversos jornais e revistas, de que se sublinham as suas participações regulares no Jornal de Letras e no Público. Valter Hugo Mãe, para além da intensa atividade literária é, igualmente, vocalista do grupo musical Governo - grafista, editor, performer e desenhista.


(Foto de Miguel Félix)

(Foto de Miguel Félix)

valter hugo mãe lê um extrato de o apocalipse dos trabalhadores:

a maria da graça queria dar mil pontapés no cu de deus. entrar no paraíso e dar mil pontapés no cu de deus até que, por maior que fosse, inchasse de vermelho e lhe doesse ao sentar. seria de modo que aprendesse a inventar menores penas para quem não tivera escolha para chegar à vida. olhava para o caixão e dizia, não me avisaste que era uma criança, é horrível, vou ter pesadelos. cala-te, graça, dizia a quitéria, eu também não sabia, e agora que aqui estamos é só ficarmos quietas e sentirmos os cinquenta euros entrar no bolso. Não me sinto aqui bem. não me sinto bem, que queres que faça. quero ir-me embora. cinquenta euros, graça, salário de médico, não te esqueças. está bem que seja pela medicina. cala-te.

Críticas

Um livro admirável cuja mestria estilística nos manipula e enebria do princípio ao fim.
Maria da Conceição Caleiro
in Público

Confirma a imensa e originalíssima capacidade criativa do autor.
Álvaro Manuel Machado
in
Expresso

Quando acabei de ler o livro (também me tinha acontecido o mesmo com A máquina de fazer espanhóis), senti algo que pela comparação espero que não o deixe ofendido. Eu odeio quando compraram, mas... Há muito tempo que eu não me identificava tanto com um tipo de escrita. A última vez

que aconteceu foi com o Saramago (perdoe-se a comparação). Mas em ambos os casos existe um grau tal de humanidade na construção das personagens, o retrato de uma realidade tão portuguesa e da nossa forma tão incompetente mas doce de ser português. Um tipo de escrita na qual eu me reconheço tanto como ser humano, que me faz agradecer aos Deuses a existência de um outro autor que me faça sentir isto.

Miguel Gonçalves Mendes,
In Diário de Notícias

Mãe est sans nul doute un obsédé... Le corps des gens, ce qu'on en fait, ce qu'ils/elles en pensent, en font : là est le sujet de son formidable roman, à l'écriture délicate et crue, d'une construction subtile.
Catherine Simon in Le monde

Alors, avec ces protagonistes-là et quelques autres de second rang, Valter Hugo Mãe s’amuse comme un petit fou, et avec ses pions romanesques, il parvient à faire prendre l’épaisseur, à faire mousser, à sortir une pâte qui prend forme et l’on dirait bien que l’auteur a retenu quelques leçons de la lecture, entre autres, de

Madame Bovary - avec laquelle Maria a d’ailleurs certains points commun, mêmes’ils apparaissent dans un miroir déformant. Il parvient jusqu’àfaire oublier le titre de son livre, qui s’affichait comme un peu trop clinquant au départ, surtout pour une histoire qui en définitive ne concerne ni la fin de la classe ouvrière, ni une quelconque secte de trimardeurs…Des points communs avec la Bovary ? Maria comme Emma tentent toutes deux d’accéder au rêve d’une classe supérieure, elles ont le désir à fleur de peau sans jamais parvenir à le combler, et fatalement toutes deux finissent par jongler avec du poison.

Antonio Werli in Fric-Frac Club
Entrevista de Valter Hugo Mãe à Radio Centre-ville, Montreal, conduzida por Ricardo Costa. Clicar na imagem para ouvir:

(Foto Daniel André)
Valter Hugo Mãe nos estúdios da Rádio Centre-ville de Montreal.

 


A obra apresentada, em edição francesa nesta sessão, O Apocalipse dos Trabalhadores, é o terceiro livro de uma tetralogia iniciada em 2004 e terminada em 2010 e é uma das obras centrais do escritor.

L'Apocalypse des travailleurs (O apocalipse dos trabalhadores), de Valter Hugo Mãe, é o primeiro romance traduzido em francês por Danielle Schramm (excelente tradução há que referi-lo.) e publicado pela editora francesa Métailié, mostra-nos a beleza escondida das mulheres simples que passam despercebidas.

Valter Hugo Mãe, apresentou, de forma breve, a obra e leu um extrato da mesma, sobretudo, para as pessoas que não haviam lido o livro, mas que temos a certeza irão lê-lo, tal foi a corrida à procura de um exemplar na livraria Olivieri, que esgotou todos os exemplares disponíveis da edição francesa e recebeu inúmeros pedidos para a aquisição de exemplares da edição portuguesa.

Seguiu-se um período de pergunta-resposta sobre vários aspetos do livro, mas as questões que formularam aqueles que não leram a obra encavalitaram-se na análise literária do livro escolhido. Valter Hugo Mãe respondeu, então, a questões de toda a ordem, com emoção, espontaneidade, dinamismo autenticidade e com a convicção de quem nelas pensa em permanência, sem que tenha, no entanto, uma resposta nem pré-feita nem perfeita: a sobrevivência do livro sobre suporte papel em relação à edição digital, ainda nos seus começos mas que virá a ocupar um lugar privilegiado; a morte (se eu morresse agora mesmo, sentiria que a vida tinha sido interrompida mas que estaria completa); a velhice (a feliz idade, a digna idade), a maternidade e ou paternidade, a humanização. Temas que percorrem, afinal, a sua obra. E, claro está, a questão sobre a forma como (não) dispõe ou utiliza os sinais gráficos nas suas obras: malabarista das palavras que as utiliza com precisão, esta e não outra, não havendo lugar para sinónimos e onde os antónimos são bem-vindos e as interrogações e as estupefações é o leitor quem decide onde colocá-las, o Valter escreve sem maiúsculas, pois na fala o leitor prescinde delas, explica. Não se trata de uma bizarria mas de uma filosofia de escrita que prescinde, igualmente. de quase toda a panóplia sinalética habitual (pontos de interrogação e de exclamação, travessão, aspas, reticências...). Muitos são os que consideram esta atitude do escritor uma homenagem a António Lobo Antunes que no seu romance A Ordem Natural das Coisas tinha proposto romper com a linha reta da narrativa clássica. Inspiro-me, sobretudo, em Al Berto, precisa Valter Hugo Mãe que explicou porque nos seus primeiros quatro romances escreveu com minúsculas... no discurso oral ninguém fala com maiúsculas, as palavras têm todas o mesmo valor, por isso escrevo em minúsculas para colocar no papel a forma mais fiel da oralidade.

É de realçar a presença significativa e interessada de elementos da diáspora que têm vindo, sucessivamente, a aumentar. Não pouparam elogios a Valter Hugo Mãe e sublinharam a importância de iniciativas deste teor, para a internacionalização de um dos bens maiores que Portugal tem, a sua pujante literatura e que tem sido até há pouco tempo um dos seus parentes pobres, a ovelha negra da sua evolução cultural, confessam alguns. E, de facto, a literatura portuguesa e lusófona tem-se afirmado nestas terras frias da América do Norte nos últimos cinco anos, num trabalho paciente e continuado. Para isso muito tem contribuído o projeto Lisez l'Europe, a que pertencemos, com a presença de escritores portugueses quer no Fil - Festival international de littérature e Metropolis Bleu, nas celebrações do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor e no Círculo de Leitura Europeu tendo participado já nestas iniciativas, Lídia Jorge , Francisco José Viegas, João Tordo, Mia Couto e Valter Hugo Mãe. Para além da presença destes escritores, outros por aqui foram lidos e analisados: José Saramago, António Tabucci, António Lobo Antunes, e Fernando Pessoa, sem esquecer as inúmeras sessões de cinema, a partir de obras de autores portugueses, de Eça de Queirós a Lídia Jorge e Mia Couto.


(Foto Jessica Ferreira)

No final da sessão, foi sorteado, como habitualmente, o livro que será objeto de leitura e análise na próxima sessão do Círculo de Leitura Europeu, dedicado à literatura italiana com a análise da obra La guerre des saints de Michela Murgia. Calhou à potuguesíssima, Alexandra César o livro sorteado. A próxima sessão do Lisez l'Europe realizar-se-á, na quarta-feira, dia 15 de janeiro, às 18h30 no Institut culturel italien, sito no 1200 avenue Docteur-Penfield. Para mais informações visitar o sítio www.lisezleurope.ca.

© dezembro de 2013



Regressado a Portugal, Valter Hugo Mãe, deixa-nos um retrato, simultaneamente desolador e pleno de esperança, em crónica publicada na Revista 2 do Público de 15 de dezembro de 2013:

Trago, desta vez, o impacto de encontrar, um pouco por todo o lado, a nova emigração portuguesa. Essa gente jovem e zangada, educada para sonhos maiores mas, repetindo ciclos, ganhando frequentemente a vida em serviços braçais. Fazem um coro de enjeitados perplexos. Têm dificuldade em acreditar como tão de repente o país se fechou para eles, depois de tanto investimento na formação, depois do esforço, sentem-se como desperdiçados, escorraçados, ofendidos por quem vê o mundo a partir de números e não pelos rostos das pessoas. Dizem-me que não voltam. Portugal tem nada para oferecer, apenas para tirar. (…) No Canadá, quer em Montreal, quer em Toronto, é impressionante ver o que a emigração dos anos 60 fez, sobretudo no que respeita à manutenção da língua entre os filhos já canadenses. Os novos emigrantes encontram nas associações consolidadas dos emigrantes mais antigos o apoio fundamental para uma integração minimamente cuidada, minimamente informada, para além do que é responsabilidade das representações diplomáticas. (…) é admirável que, em alguns lugares do mundo, se tenha criado um certo pulmão português onde, à revelia da distância, as pessoas se podem identificar e guardar memória.

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Consulado-Geral de Portugal
em Montreal