Sérgio Kokis nasceu em 1944 no Rio de Janeiro. Cedo começaram as suas deambulações por uma vida sempre arriscada, desde a casa de correcção, onde recebeu uma educação que de outra forma não lhe teria sido permitida, passando pela sua adesão ao movimento comunista, para combater a ditadura que, pouco a pouco, se ia implantando na sua terra, à denúncia pelos próprios líderes e companheiros de partido, até à homérica fuga e arriscado exílio em França. Ainda teve tempo para, no Rio de Janeiro, frequentar a Escola de Belas-Artes e estudar Filosofia. Na Universidade de Strasbourg, Sérgio Kokis terminava, em 1969 uma licenciatura em Psicologia enquanto, no Brasil, a ditadura estava para durar. Exilou-se, mais tarde no Canadá, onde trabalhou durante muito tempo, no domínio da Psicologia. Doze anos volveram desde que Sergio Kokis abandonou a sua profissão de Psicólogo para se dedicar inteiramente –inteiramente não, já que continuou a pintar- à escrita. Data de 1994, a edição do seu primeiro livro Le pavillon des miroirs, tendo, com ele, obtido quatro prémios literários dos quais se sublinha, o Prémio da cidade de Montreal. Seguiram-se-lhe Negão et Doralice, (1995), Errances, (1996), L'art du maquillage, (1997), Un sourire blindé, (1998), La danse macabre du Québec, (1999), Le maître de jeu, (1999), Saltimbanques, (2000), Kaléidoscope brisé, (2001), Le magicien, (2002), Les amants de l'Alfama, (2003), L'amour du lointain, , (2004) e La gare (2005). Vitália Rodrigues: - Nascido no Brasil e daí fugido, Sergio Kokis exilou-se não só de uma terra que lhe foi madrasta, mas também de pessoas, profissão, trabalho, lugares, amigos e inimigos para, no fim, vaguear pelo mundo à procura de si próprio, com grande amor pelo longínquo. Paradoxalmente, ou talvez não! Fixou-se, desde 1969, no Quebeque que adoptou como pátria e, ainda que fale bem a língua de Camões e Machado de Assis, o Francês é a sua língua de uso e, consequentemente, de produção literária. Sergio, porquê o Francês e não o Português? Sergio Kokis: - Não uso o português há vários anos, tão simplesmente porque não pude praticar a minha língua materna no exílio, pois não tinha contacto com nenhum português, brasileiro ou falante de português. Os poucos livros que existiam na biblioteca da Universidade de Montreal eu esgotei eles muito rápido. Entretanto pratiquei outras línguas como o francês, o inglês e o espanhol. Fui vivendo sempre em francês e todo o meu quotidiano era em Francês: na minha profissão de Psicólogo eu trabalhava em Francês, escrevia os meus relatórios no hospital em Francês e o Francês tornou-se, naturalmente, na minha língua de uso. E sem me dar conta, o primeiro livro que escrevi saiu em Francês. Vitália Rodrigues: - A escrita e a pintura apareceram sensivelmente há 12 anos e constituem, para além de um desejo louco de criação artística, um processo catártico que você vive. É um ajuste de contas com o seu passado? Sergio Kokis: - Sempre pintei desde os meus tempos ainda no Brasil. Sempre foi uma actividade paralela. Só a escrita é que apareceu há cerca de 12 anos. Coisa tardia na vida, não sei bem direito porquê, mas foi assim que aconteceu. Vitália Rodrigues: - Sergio, 12 anos, catorze livros para se descobrir ou encontrar, uma vez que nos seus livros aparece sempre um personagem, se não igual, pelo menos gémeo do escritor. Quantos mais livros tem de escrever para concluir essa limpeza emocional ou purificação? Sergio Kokis: - Vou continuar a escrever. Cada vez que estou terminando um livro, digo sempre que é o último. Tornou-se um hábito para mim. Quando estava cansado escrevia. Para a pintura é preciso muita força física e quando estava cansado de pintar, sentava-me e escrevia. Quanto mais se escreve mais a actividade criativa e literária se desenvolve. Os livros começam a aparecer na nossa cabeça sem esforço. Acho que vou continuar a escrever durante muito tempo ainda. É certo que quando escrevo viajo ao interior de mim próprio. Vitália Rodrigues: - Dos catorze livros seus publicados até agora, falaremos de Les amants de l’Alfama, passado na noite de Todos-os-Santos em Lisboa, e de La Gare, que acaba mesmo agora de sair (ainda cheira a tinta fresca). Todo o enredo ocorre em Terras de Ninguém. Em Les amants de l’Alfama a ideia com que se fica é a de que o Sergio desenvolve um dos seus paradoxos existenciais consubstanciado na ideia de que se percorre o mundo inteiro (neste caso Lisboa inteira) para se encontrar, o que se tinha à porta de casa. Sergio Kokis: - Todas as aventuras são uma busca contínua de si mesmo, da sua consciência. Foi isto que eu quis mostrar nesta aventura de uma noite em Lisboa. Nos encontros que o Joaquim vai tendo com as várias pessoas que vai encontrando, conta a sua história. E ouve as histórias dos outros. E ao ouvir as histórias dos outros aprende mais sobre si e sobre o sentimento de perda e o desgosto que o faz sofrer. A nossa lucidez está na nossa própria cabeça. É, de facto, preciso dar a volta ao mundo para se encontrar consigo mesmo. Ele perdeu a Matilda e é preciso perdê-la para voltar a encontrá-la. Há uma tomada de consciência triste, mas isso mesmo o torna mais lúcido. Vitália Rodrigues: - O Sergio escreve no seu livro: - Dizes que Lisboa é triste... não é verdade Joaquim! Lisboa é uma menina, uma vadia que ri e canta. Lembra-te do sol e da roupa colorida pendurada nas cordas, como se fossem bandeiras representando famílias felizes. Dado que há no Joaquim um pouco de Sergio Kokis, ocorre-me perguntar-lhe se acha, realmente, que Lisboa é triste? Sergio Kokis: - Lisboa não é triste, pelo contrário é uma cidade alegre, repleta de castiços. Como os portugueses, ela é uma cidade melancólica. Olha para o passado com uma grande saudade, com um sentimento de perda do que já foi no passado. O fado só podia ter crescido aí. Os portugueses encaram a vida com seriedade e melancolia. Estão conscientes de ter perdido algo, mas também são alegres e isso vê-se nas cores da cidade que se reflectem no céu azul. Melancolia não é tristeza. A tristeza é uma coisa depressiva. A melancolia é ter consciência do que se perdeu, mas ao mesmo tempo saber que se ganhou outra, quase sempre mais importante. Essa melancolia está ligada ao passado português, à ditadura de quase cinquenta anos e à ainda tão recente guerra injusta e fraticida que lhes pesa na consciência. Mas isso é também fonte de criatividade, como o testemunha a Literatura Portuguesa. Nos países alegres, a literatura é superficial, como está acontecendo no Brasil de hoje ao contrário do que sucedia nos tempos da ditadura em que a literatura era séria, profunda, de combate, criativa. Vitália Rodrigues: - Sendo Les amants de l’Alfama, um livro que com toda a evidência interessa aos alfacinhas, a questão que se coloca, desde logo, é a de saber se já pensou na sua tradução e publicação em Portugal? Sergio Kokis: - Neste momento o meu editor já está em negociações com uma editora portuguesa. Ter um dos meus livros publicados em Portugal seria uma enorme honra para mim. O único livro que tenho traduzido em Português é A Casa dos Espelhos, publicado no Brasil pela editora Record. Vitália Rodrigues: - Quando lemos o livro La gare lembramo-nos de uma paradoxo desenvolvido por Dostoievski: As maiores tragédias das nossas vidas são as que nunca chegaram a acontecer. Transpondo para o conteúdo do livro La gare poderíamos bem dizer que a pior tragédia que pode acontecer a alguém é a de nunca ter tido a oportunidade de viver três semanas em Vokzal village. Perder-se no mais inusitado – mas também intuitivo – dos gestos para se encontrar e, depois, fugir para junto de si próprio. Tal é a leitura rápida que faço do novo livro de Sergio Kokis La gare. ( O Apeadeiro em Português). No próprio livro pode ler-se: Para que serve organizar a vida e planear, pormenorizadamente, cada uma das suas décadas, se tudo o que foi definido é posto em causa pelo simples facto de se descer num apeadeiro? Sergio Kokis: - Trata-se de uma crise existencial. Adrian, está numa situação crítica onde a sua entidade interior foi atingida. Ele tinha uma entidade externa: mulher, filho, papagaio, comida, trabalho assegurado, férias a tempo e horas, cama e roupa lavada. Quando, de repente, perde essa entidade fica desarmado. Num dado momento, no livro, diz que, se pudesse voltar para trás, saberia, realmente, dizer quem era. Quando diz isso a sua transformação está já em marcha, no sentido de se tornar naquilo que sempre foi. A crise faz com que coloque em questão toda a vida anterior. Está disposto a correr o risco de conseguir uma vida mais próxima dos seus ideais, mais de acordo com o que magicou na sua juventude do que o morno e confortável tédio da sua vida actual. Perdeu todos os ideais tornando-se um engenheiro casado (e cansado), com um trabalho prestigiado, estável e com futuro. Quando ele enrola o tabaco na casa de banho do apeadeiro, lembra-se do rapaz que foi e é a partir daí que começa a ganhar-se a si próprio, enfrentando a morte. Paradigma da sua nova condição. Tem que morrer o homem que estava a morrer aos bocados em cada minuto da existência para se transformar no homem novo que, afinal, sempre foi, amante da vida, sempre adiada. É uma visão cínica da vida, pois as normas sociais impedem-nos de ver com mais honestidade aquilo que somos na realidade.
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