Luís Aguilar e Sérgio Kokis


por

Kathy Santos

Daphné Vieira



No dia 15 de Março passado, na Universidade de Montreal, realizou-se um Encontro-(de)bate-papo, entre Luís Aguilar, professor de Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas naquela universidade e Sérgio Kokis, escritor-pintor, quebequense, de origem brasileira. O debate ficou marcado (quanto a nós de forma inabitual e interessante) pela confrontação de ideias, por parte dos dois interlocutores que alargaram a conversa à cerca de uma centena de pessoas presente na sessão-aula de Introduction à la culture brésilienne.

Sérgio Kokis começou por contrariar algumas ideias que se tecem, geralmente, a (des)propósito sobre o Brasil. A alma brasileira, o samba, o carnaval, o futebol, as praias são ilusões (“foutaises” e “clichés”) muito difundidas e que mais não servem do que mascarar as verdadeiras misérias de um país incivilizado eivado de racismo, miséria, criminalidade, destruição ambiental, etc.

Mostrando-se fascinado por Portugal, a grandiosidade da sua civilização milenar, a riqueza imensa da sua literatura, Sérgio Kokis empurrou o professor da Universidade de Montreal para, também ele, referir as amarguras que sente pelo seu país nostálgico e prisioneiro do passado, a sonhar com caravelas e à espera de D. Sebastião, recusando situar-se no presente e a virar-se para o futuro. E o Brasil virado para o mítico futuro que nunca mais chega?- retorque o escritor, citando Gilberto Freyre.

Com ideias radicalmente diferentes sobre as duas nações, as discussões foram cruzadamente bem animadas, fazendo cada um deles o contraditório do outro. Mas, no fim, os dois entenderam-se sobre o essencial: dois países com grandes potenciais que partilharam uma história comum. Os dois construíram um saboroso momento de discussão participada, irreverente e aberta.


Quem é Sérgio Kokis?
Sérgio Kokis nasceu em 1944 no Rio de Janeiro. Oriundo de um meio pobre, foi preso e levado para uma casa de correcção, onde recebeu uma educação que de outra forma não lhe teria sido permitida. Mais tarde, ainda no Rio de Janeiro, frequentou a Escola de Belas-Artes e, depois, estudou Filosofia. A partir de 1963, aderiu ao movimento comunista combatendo a ditadura que a pouco a pouco se ia implantando na sua terra. Denunciado pelos próprios líderes e companheiros do seu partido, conseguiu fugir e acabou por exilar-se em França. Na Universidade de Strasbourg, Sérgio Kokis terminava, em 1969 uma licenciatura em Psicologia enquanto, no Brasil, a ditadura estava para durar. Exilou-se, mais tarde no Canadá, onde trabalhou durante muito tempo, no domínio da Psicologia.

Em 1994 foi publicado o seu primeiro livro: Le pavillon des miroirs, que recebeu vários prémios.

A partir de 1997, Sérgio Kokis decide dedicar-se inteiramente à pintura e à escrita. Desde o seu primeiro sucesso, tem publicado pelo menos um livro por ano e tem um sótão repleto de quadros que -diz- teve necessidade de pintar. Dois deles estavam, como se vê nas gravuras, expostos nas paredes da sala onde decorreu a sessão: um retrato de Fernando Pessoa e outro com uma prostituta lisboeta que ele quis homenagear.
Bastante admirado no meio quebequense, Sérgio Kokis é praticamente desconhecido da comunidade portuguesa montrealense, mau-grado o prémio de Personalidade da Lusofonia que lhe foi atribuído pelo jornal comunitário LusoPresse.




Errances
Em Errances, Sérgio Kokis, dá a conhecer a sua odisseia, sobretudo, os momentos iniciais do seu exílio, onde o protagonista, Boris, se confunde com a história do escritor. - É o meu melhor livro, diz Sérgio Kokis, apesar de não ter recebido prémio algum com ele. O melhor da minha vida foi o exílio e, porque difícil se torna, para mim, voltar ao Brasil, mandei para lá um dos meus personagens, no meu lugar, para ver quanto mudaram as pessoas enquanto a triste situação do país não mudou muito – explica Sergio Kokis.

 

O seu Brasil
Muito controverso se apresentou o Mon Brésil, de Kokis: um Brasil mítico que tem a ver com o tempo da ditadura em que o escritor lá viveu e que para lá nunca mais quis voltar. E, ainda hoje, coloca muitas reticências e apreensões a um regresso (também este mítico) ao país, mesmo que de natureza turística. Considera não ser ele um especialista de assuntos que versam o Brasil, mas sim, um especialista crítico do ‘seu’ Brasil. Um Brasil que não tem nada a ver com os estereótipos atrás referidos, mas sim com uma nação de contrastes gritantes, pobre, racista e de prostituição. A pobreza e a miséria que ele viu e viveu em primeira mão. O racismo foi um dos temas mais contundentes e mais longamente abordados por Sérgio Kokis. Considerando um fenómeno intrinsecamente entranhado na sociedade brasileira, crê o autor que quanto mais se falar desse problema maiores possibilidades haverá de combatê-lo. E não fazer como faz a grande maioria dos brasileiros que conhece que, hipocritamente, dizem despudoradamente que o racismo não existe na sociedade brasileira. O que ele está é bem disfarçado, considera Sergio Kokis, exemplificando com uma frase que um escritor brasileiro que conhece diz, com toda a naturalidade: - Não há racismo aqui, no Brasil, porque os pretos conhecem bem o seu lugar. Sérgio Kokis, considera ter tido sorte, apesar de tudo, em ter a pele branca e de, por via disso, ter tido o acesso a uma educação numa casa de correcção, sítio que albergava cerca de 400 jovens, mas só um era preto. Lembro-me agora dele: chamavam-no Amendoim. Estava ali para representar todos os outros pretos, pois assim ninguém podia acusar a instituição de racismo. Por trás das raparigas bonitas e de boa bunda, emerge uma realidade que essa ninguém mostra no Carnaval: a de um país onde existem muitas raparigas que se prostituem desde a idade dos 7 anos. – denuncia Sérgio Kokis.

A Herança Africana
Grande conhecedor da História dos povos que foram conquistados no território do Brasil e dos que foram para lá como escravos, mostra-se bastante sensível ao contributo que os africanos deram na construção do Brasil e à dinâmica que imprimiram, contributo que explica a dinâmica que o Brasil tem hoje e a diferença e diversidade humanas. Muito diferente do que aconteceu com os índios que foram completamente liquidados pelos conquistadores europeus, foi a sorte que tiveram os escravos africanos. Sérgio Kokis considera que os índios do Brasil não eram suficientemente “avançados” espiritual e civilizacionalmente de forma a que pudessem superar o desespero. Ao serem incapazes de vencer esse desespero, os índios deixavam-se morrer. Pelo contrário, os Africanos tinham uma religião já muito evoluída espiritualmente que lhes permitia ter uma esperança que alimentava a sua sobrevivência. - Os negros quando partidos de África não chegavam ao Brasil de mãos a abanar. Traziam uma civilização e uma cultura que enriqueceram bastante o Brasil, conferindo-lhe toda a festividade e alegria de viver. E com eles trouxeram a comida tradicional, a religião, a música. Tudo isto está ainda hoje bem presente na cultura brasileira. Houve um tempo em que os pretos eram 70% da população. Infelizmente, hoje em dia, eles já só são 7%. Kokis deplora o facto de quase não haver pretos nas universidades, na política, em lugares de destaque. Pelos vistos eles não sabem qual é o seu lugar na sociedade brasileiro que tanto lhes deve e que tão mal os trata– diz Sérgio Kokis que gostaria de ver nascer um movimento de libertação dos pretos no Brasil para que os brasileiros deixassem de fechar os olhos a uma realidade desse povo do qual ele se sente muito próximo.

A Língua Francesa

Todos os livros de Sérgio Kokis foram redigidos em Língua Francesa, a sua língua de uso, apesar de ser o Português a sua língua materna, que, de resto, domina com mestria. - Tive de fazer uma escolha que não foi fácil –diz. Foi o Francês a língua que ele adoptou por mais a ter praticado, pois uma grande parte dos seus estudos foram feitos em países francófonos. Kokis lembra a propósito que Joseph Conrad escolheu escrever numa língua outra que a materna.

O Amor por Portugal

É muito diferente o Portugal de Sérgio Kokis de o “seu Brasil”. Portugal, descobriu-o há cerca de cinco anos e, desde então, tem lá ido todos os anos, pois apaixonou-se pelo país, pela sua história, pela cultura, comida e povo e pela sua possante literatura, destacando, sobretudo, Miguel Torga e Vergílio Ferreira. Questionado pela estudante Carla Jordão sobre o que é que afinal o Brasil lhe facultou, responde que do Brasil, o seu país natal, construiu um imaginário tropical; para atenuar a raiva que sente. Mas diz-se grato pela situação que o Brasil lhe proporcionou, nomeadamente possibilitar-lhe o desenvolvimento do gosto da descoberta e da ânsia de conhecer novas línguas. E explica: - Pouca literatura séria era publicada em Português no tempo em que estive no Brasil.


Um intelectual deve chocar

Para Sérgio, a função de um artista, de um intelectual, deve ser a de chocar e fazer perguntas que ninguém ousa fazer e a que ninguém quer responder. E foi isso mesmo que Sergio Kokis conseguiu com as suas perspectivas pouco convencionais durante todo o evento. A que chocou mais uma rapariga de origem franco-peruana presente no encontro, foi o seu ponto de vista sobre Cuba: - Fidel de Castro é o único na América latina a tentar diminuir a miséria e a chatear o imperialismo americano. Castro faz tudo o que pode para proteger o povo cubano e garantir uma educação, um sistema de saúde e uma segurança que os outros países da América Latina não têm. A liberdade é um mito, eu daria a minha liberdade para que as crianças no Brasil tivessem a possibilidade de terem uma educação decente e um copo de leite e não o que acontece impunemente perante a indiferença desses mesmos intelectuais e responsáveis políticos: são mortos na rua, sem dó nem piedade por gente paga. É esta a liberdade que os intelectuais reclamam?
Ainda que por vezes chocados com a forma e o conteúdo deste encontro-debate os participantes mostravam-se satisfeitos por muito terem aprendido e por terem tido a possibilidade de debater temas que ficam, geralmente, na obscuridade ou são manufacturados na caldeira do politicamente correcto.

 

Questões feitas a Sérgio Kokis pelos estudantes de Introduction à la culture brésilienne