Mostrando-se fascinado por Portugal, a grandiosidade da sua civilização milenar, a riqueza imensa da sua literatura, Sérgio Kokis empurrou o professor da Universidade de Montreal para, também ele, referir as amarguras que sente pelo seu país nostálgico e prisioneiro do passado, a sonhar com caravelas e à espera de D. Sebastião, recusando situar-se no presente e a virar-se para o futuro. E o Brasil virado para o mítico futuro que nunca mais chega?- retorque o escritor, citando Gilberto Freyre. Com ideias radicalmente diferentes sobre as duas nações, as discussões foram cruzadamente bem animadas, fazendo cada um deles o contraditório do outro. Mas, no fim, os dois entenderam-se sobre o essencial: dois países com grandes potenciais que partilharam uma história comum. Os dois construíram um saboroso momento de discussão participada, irreverente e aberta.
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O
seu Brasil
Muito controverso se apresentou o Mon Brésil, de Kokis: um Brasil mítico que tem a ver com o tempo da ditadura em que o escritor lá viveu e que para lá nunca mais quis voltar. E, ainda hoje, coloca muitas reticências e apreensões a um regresso (também este mítico) ao país, mesmo que de natureza turística. Considera não ser ele um especialista de assuntos que versam o Brasil, mas sim, um especialista crítico do ‘seu’ Brasil. Um Brasil que não tem nada a ver com os estereótipos atrás referidos, mas sim com uma nação de contrastes gritantes, pobre, racista e de prostituição. A pobreza e a miséria que ele viu e viveu em primeira mão. O racismo foi um dos temas mais contundentes e mais longamente abordados por Sérgio Kokis. Considerando um fenómeno intrinsecamente entranhado na sociedade brasileira, crê o autor que quanto mais se falar desse problema maiores possibilidades haverá de combatê-lo. E não fazer como faz a grande maioria dos brasileiros que conhece que, hipocritamente, dizem despudoradamente que o racismo não existe na sociedade brasileira. O que ele está é bem disfarçado, considera Sergio Kokis, exemplificando com uma frase que um escritor brasileiro que conhece diz, com toda a naturalidade: - Não há racismo aqui, no Brasil, porque os pretos conhecem bem o seu lugar. Sérgio Kokis, considera ter tido sorte, apesar de tudo, em ter a pele branca e de, por via disso, ter tido o acesso a uma educação numa casa de correcção, sítio que albergava cerca de 400 jovens, mas só um era preto. Lembro-me agora dele: chamavam-no Amendoim. Estava ali para representar todos os outros pretos, pois assim ninguém podia acusar a instituição de racismo. Por trás das raparigas bonitas e de boa bunda, emerge uma realidade que essa ninguém mostra no Carnaval: a de um país onde existem muitas raparigas que se prostituem desde a idade dos 7 anos. – denuncia Sérgio Kokis. A
Herança Africana A Língua Francesa Todos os livros de Sérgio Kokis foram redigidos em Língua Francesa, a sua língua de uso, apesar de ser o Português a sua língua materna, que, de resto, domina com mestria. - Tive de fazer uma escolha que não foi fácil –diz. Foi o Francês a língua que ele adoptou por mais a ter praticado, pois uma grande parte dos seus estudos foram feitos em países francófonos. Kokis lembra a propósito que Joseph Conrad escolheu escrever numa língua outra que a materna. O Amor por Portugal É muito diferente o Portugal de Sérgio Kokis de o “seu Brasil”. Portugal, descobriu-o há cerca de cinco anos e, desde então, tem lá ido todos os anos, pois apaixonou-se pelo país, pela sua história, pela cultura, comida e povo e pela sua possante literatura, destacando, sobretudo, Miguel Torga e Vergílio Ferreira. Questionado pela estudante Carla Jordão sobre o que é que afinal o Brasil lhe facultou, responde que do Brasil, o seu país natal, construiu um imaginário tropical; para atenuar a raiva que sente. Mas diz-se grato pela situação que o Brasil lhe proporcionou, nomeadamente possibilitar-lhe o desenvolvimento do gosto da descoberta e da ânsia de conhecer novas línguas. E explica: - Pouca literatura séria era publicada em Português no tempo em que estive no Brasil.
Para Sérgio,
a função de um artista, de um intelectual, deve ser
a de chocar e fazer perguntas que ninguém ousa fazer e a que
ninguém quer responder. E foi isso mesmo que Sergio Kokis conseguiu
com as suas perspectivas pouco convencionais durante todo o evento.
A que chocou mais uma rapariga de origem franco-peruana presente no
encontro, foi o seu ponto de vista sobre Cuba: - Fidel de Castro
é o único na América latina a tentar diminuir
a miséria e a chatear o imperialismo americano. Castro faz
tudo o que pode para proteger o povo cubano e garantir uma educação,
um sistema de saúde e uma segurança que os outros países
da América Latina não têm. A liberdade é
um mito, eu daria a minha liberdade para que as crianças no
Brasil tivessem a possibilidade de terem uma educação
decente e um copo de leite e não o que acontece impunemente
perante a indiferença desses mesmos intelectuais e responsáveis
políticos: são mortos na rua, sem dó nem piedade
por gente paga. É esta a liberdade que os intelectuais reclamam?
Questões feitas a Sérgio Kokis pelos estudantes de Introduction à la culture brésilienne
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