E até, a fim de não recordar águas passadas e dolorosas, se fala dele como filho póstumo para não magoar a viúva, continuava Furnigungues Rabanete inflamado. O diplomata estrangeiro arregalava os olhos, anuindo com a cabeça. Isto para já não referir o filho primogénito, o pródigo, os filhos de um ventre, o filho varão, o filho de Deus, o filho de santo, o filho espiritual, etc., fora os provérbios como filho de peixe sabe nadar, tal pai tal filho ou ser filho de Deus e lá que ele o era, era, e não admitia que ninguém se esquecesse disso! Além do mais, ele, Furnigungues Rabanete, já era um filho da casa, um elemento antigo da Instituição, e esfregava as mãos de contente, enquanto pensava nisso, ele exigia respeito! E, diga-me o meu amigo, continua levantando-se, dando sinal de que a audiência terminara, em que língua se poderia encontrar a expressão filho das ervas ou filho do vento para designar alguém descendente de pais desconhecidos ou de origem humilde? Em nenhuma, tanto quanto eu saiba... murmurava o diplomata convencido. E isto fora as expressões brasileiras, continua erudito, aproximando-se já da porta, como filho da Candinha, o que é um mimo, para designar o povo ou as más-línguas, e eles, os subservientes e desrespeitadores da hierarquia, nada mais são do que isso mesmo, uns grandes filhos da Candinha! E nada disto é obsceno! Dizia-lhe eufórico, dando-lhe umas palmadinhas nas costas. Nunca hei-de dominar esta língua de tantos filhos da Canequinha... Candinha, homem, Candinha! Você está é a precisar de uma cerveja! Perdão, murmurou o Diplomata, com tantos filhos, sejam lá de quem for... Acabo de chegar de Itália, lá eles reduzem tudo, são mais sintéticos... São é mais primitivos, é o que é! Responde Furnigungues Rabanete exaltado, sacudindo-lhe a mão com força, enquanto o outro ia abandonando o gabinete encavacado. Furnigungues Rabanete esfrega as mãos de contente. Despachou-o a grande velocidade e nem lhe deu tempo para falar sobre aquilo tão desagradável de terem de desistir do protocolo prometido. Carrega no botão do intercomunicador e diz para a secretária: Não estou para ninguém! Suspira, e pensa em voz alta: manda-se-lhe um E-mail e pronto, é mais rápido e evitam-se discussões! Que ideia genial esta de começar a dissertar sobre os filhos portugueses! O Diplomata, confuso, parado no corredor, repara que acabou por não falar do assunto que ali o levara, mas que chatice, e agora? Dirige-se a passos lentos à recepção e pede para falar com a secretária. Desculpe, mas precisava de dar ainda uma palavrinha ao Doutor.... O Doutor já saiu, está numa reunião, só volta lá para a noite, quer que lhe diga alguma coisa? Não, obrigado, murmura perplexo, dirigindo-se para a porta, ele fez de propósito, para não falar sobre o protocolo! Mas que grande chatice! Porque diabo lhe falei eu sobre a coisa do filho ou o filho da coisa? Ele sabia muito bem o que estava a fazer! Mas que grande filho putativo que ele me saiu, e aqui precisamos de interromper os seus pensamentos para esclarecer o termo jurídico que o Diplomata, advogado por licenciatura, conhecia bem para designar o nascido de um casamento desta natureza. Os italianos até têm muitíssima razão! pensava furioso enquanto descia no elevador e só não lhe chamava filho dum cão, porque era um apaixonado fervoroso pelos ditos. Furnigungues Rabanete é isso mesmo, um filho que se supõe ou aparenta ser verdadeiro e legal, ele que, ao que parece, nenhum respeito nutre por leis, vê-se na questão do protocolo, como o pode ter na origem? O diplomata abana a cabeça. Putativo e grande, é o que ele é, não tenho nada contra os pais dele, muito antes pelo contrário, até tenho pena deles, mas os italianos são mais directos, dizem o que têm a dizer, sem discursos, agora este putativo duma figa, e lá ia discutindo com os seus botões pelos corredores fora. Seja lá o que for, que lhe vá pela cabeça, a verdade é que não soa bem, lá isso não. Mal sabe o Diplomata que não está sozinho nestes seus pensamentos, os lentes e sub-lentes e demais subservientes utilizavam outros sintagmas descendentes do filho para se lhe dirigirem em pensamento ou entre si, tal como filho do mosco, designação dada aos vulgos gatunos que entram nas casas por arrombamento, e lá que ele lhes tinha arrombado as casas e a bolsa, lá isso tinha, para além de usarem frequentemente a expressão "estou a fazer filhos em mulher alheia", que não é o que parece - Vá de retro Satanás! que eles vinham todos de boas famílias -, mas sim, esforçar-se inutilmente, quando outros têm proveito e lá que eles se esforçavam, disso não restava qualquer dúvida e quem tinha o proveito todo era ele, o filho putativo por excelência. Paula de Lemos |