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PELOS MARES DA LUSOFONIA. . . NAVEGAR É PRECISO PELO CABO DAS TORMENTAS OU DA BOA ESPERANÇA por |
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Não
creio que no último século português,
O
presente texto foi, colectivamente, construído pelos estudantes
abaixo-assinados, a partir de uma Caça ao Tesouro Interactiva
criada por Luís Aguilar, LUSOFONIA:
OS NOVOS MUNDOS DO MUNDO,
no âmbito da cadeira do Programa de Mineur
en langue portugaise et cultures lusophones:
la lusophonie, cours synthèse.
Até há alguns meses atrás, nunca tínhamos ouvido falar de Lusofonia. Também não conhecíamos nada sobre a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e ainda menos sobre os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Mas a maior e a mais rica descoberta que fizemos foi a de conhecer pessoas que, sem serem de origem portuguesa, se interessam pela Língua de Camões, Pessoa, Machado de Assis, Gabriel Mariano, José Craveirinha, Mia Couto, Pepetela, etc. Ainda que a magna língua portuguesa seja para alguns de nós a língua mais bonita que existe e que nos orgulhamos de nela nos podermos exprimir, temos consciência de que o Português não tem a mesma popularidade que o Espanhol, o Alemão, o Francês ou mesmo o Italiano. As pessoas que se foram conhecendo na cadeira de Lusofonia, impressionaram-se mutuamente e mudaram, certamente, a concepção que tinham da Língua Portuguesa e os espaços múltiplos onde se fala. Apercebemo-nos de que o mundo lusófono não se limita a Portugal e que, no Brasil, não se fala brasileiro, como aqui no Quebeque, muitas vezes se pensa, isto já sem falar nos que ainda julgam que no Brasil e em Portugal se fala Espanhol. Temos agora uma maior consciência do significativo papel que uma língua pode ter na união e aproximação entre os povos que a falam, apesar das diferenças raciais, religiosas, políticas e étnicas. Apercebemo-nos ainda das diferenças abissais- no duplo sentido do termo (enorme e misterioso) - que, Portugal tem com cada uma das suas antigas colónias. Do extremo azedume que Angolanos e Portugueses, actualmente, nutrem entre si, à ternura e afecto que Portugueses e Timorenses partilham, muitas são as questões problemáticas da Lusofonia que neste texto vamos analisar ainda que, de forma necessariamente sucinta.
A PALAVRA LUSOFONIA Etimologicamente, a palavra Lusofonia vem de uma das três províncias romanas da Hispânia, chamada Lusitânia, cujos habitantes eram os Lusitanos. LUSO- do latim, lusu- relativo a lusitano, português, relativo a Portugal, FON- do grego : som; voz; palavra; língua. -IA : sufixo de origem grega que se emprega, sobretudo, com substantivos abstractos derivados de adjectivos e que designam uma qualidade ou defeito ou a capacidade ou um estado. Assim sendo, lusofonia, quer dizer, etimologicamente, a qualidade abstracta do lusófono que tem a capacidade de falar a língua dos lusos ou lusíadas ou portugueses. Linguística e culturalmente, a palavra lusofonia designa a comunidade linguística de todos os indivíduos que têm em comum a Língua Portuguesa e que, por isso, partilham aspectos culturais e históricos comuns. Geográfica e sociopoliticamente, a palavra Lusofonia designa o conjunto dos oito países que adoptaram a Língua Portuguesa como língua oficial. A Lusofonia com todos os aspectos que lhe são próprios, pode e deve ser estudada de vários pontos de vista ou aspectos que a podem explicar: as origens, o passado, o presente e o futuro. Historicamente, a formação da Lusofonia começou, como profetizou Miguel Torga, com o sonho do homem lusitano à medida do mundo. E foi pioneiro, original no ser universal, misto de génio, mago e aventureiro. Os descobrimentos portugueses iniciados nos séculos XV e XVI deram origem a colónias em vários mundos do mundo inteiro. Colonos e missionários portugueses levaram com eles a sua língua e a sua cultura e influenciaram os povos com os quais estabeleceram contacto.
A LÍNGUA PORTUGUESA, O PRIMEIRO ESPAÇO DA AFIRMAÇÃO DA LUSOFONIA Tendo em conta os vários significados que encerra o conceito de Lusofonia que acabámos de referir, podemos, desde logo afirmar que a língua é o primeiro passo para a consolidação e afirmação do espaço da Lusofonia; ela é o denominador comum, capaz de unir e de criar afinidades entre os povos. A Língua portuguesa é o elemento principal, o critério de base, para definir o espaço lusófono no mundo, para consolidá-lo e afirmá-lo como um vínculo histórico e patrimonial comum aos oito países que constituem a CPLP. O espaço lusófono abrange os cinco continentes e, por isso mesmo, está sujeito a ter uma grande diversidade (racial, religiosa, costumes, etc.). Um só elemento une esse espaço: a língua portuguesa. Como diria o poeta a minha pátria é a língua portuguesa. Mas,
esse factor de unidade fundamental, que é a lÍngua Portuguesa,
na construção da Lusofonia não tem o mesmo estatuto
e importância em todos os países. Se o Português
é a língua materna da esmagadora maioria das populações
de Portugal e do Brasil, já o mesmo não se poderá
dizer dos países africanos lusófonos, onde o português,
sendo a sua língua oficial, neles é na maioria das populações
língua segunda ou língua de ensino. Na Guiné-Bissau,
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor falam-se
principalmente várias línguas nacionais e os crioulos
de base lexical portuguesa. Da mesma maneira, fora da CPLP, o Português
permanece o critério fundamental para definir o espaço
lusófono, ou porque é falado por uma maioria significativa
de pessoas ou porque é um elemento importante do passado de um
pais que deixou vestígios importantes (línguas crioulas
portuguesas, documentos oficiais da administração, folclore,
monumentos, etc.), donde se pode deduzir a importância da Língua
Portuguesa, o que justifica aos membros das comunidades que falam o
Português ou línguas ou crioulos ou dialectos que dele
emanaram, serem incluídos num espaço comum, pelo menos
virtual ou espiritual, que tenha a língua portuguesa como factor
unificador.
A LUSOFONIA COMPARADA COM A FRANCOFONIA E A COMMONWEALTH A Francofonia é considerada uma organização concreta de 51 estados e países, no âmbito da qual podemos identificar uma política internacional de cooperação ao serviço da educação, da diversidade cultural, da economia e do desenvolvimento, da paz, da democracia, dos direitos do homem, com programas específicos para cada um desses aspectos. Por seu turno, a Commonwealth também é uma grande organização com 54 membros (incluindo Moçambique) com objectivos de protecção dos direitos do homem, igualdade para as mulheres, desenvolvimento económico, comércio justo, protecção do meio-ambiente, apoio à ONU, Educação, programas culturais, etc. Infelizmente, a Lusofonia não chega - e parece-nos estar ainda longe de chegar- aos calcanhares da Commonwealth , da Hispanofonia e da Francofonia. A primeira razão deve-se, obviamente, ao número de países aderentes, oito, que integram a Lusofonia em contraste com os 54 países membros da Commonwealth, os 51 da Francofonia e os 19 da Hispanofonia. Em segundo lugar, porque a Lusofonia é um conceito mais recentemente aparecido dada a tardia descolonização portuguesa se comparada com a dos países das outras xfonias. A terceira razão para a fragilidade da Lusofonia quando comparada com os outros movimentos sócio-linguísticos, deve-se ao facto de a maioria dos povos que pertence à Lusofonia serem países muito pobres e destruídos pelas guerras coloniais, primeiro, e civis, depois. Uma quarta razão deve-se ao facto de os membros que integram a Lusofonia serem exclusivamente países de Língua Oficial Portuguesa e a centração dos seus objectivos ser nas questões linguísticas. A Commonwealth é um prolongamento do colonialismo britânico e tenta o mais possível implantar um poder diplomático e económico Inglês sobre países diversos, quer eles falem ou não Inglês. A Francofonia funciona da mesma forma mas, em vez de ser centrada na economia é centrada na cultura, criando diversos organismos de difusão, como por exemplo, a TV5, televisão internacional da francofonia. A RTPI Internacional só muito parcialmente cumpre este objectivo. Pelo que acabámos de expor, é natural que a Lusofonia não tenha conseguido ainda afirmar-se face às outras associações internacionais, tenha muito menos poder de acção que a Commonwealth e que a Francofonia, e, por isso, o seu peso seja ainda diminuto. Terá, a Lusofonia que definir e realizar os seus objectivos e, sobretudo, abrir as suas portas a outros países. Bom seria que a CPLP e os PALOP tivessem mais disciplina e organização e fizessem prova de credibilidade. Se houvesse menos problemas e menos corrupção no seio destas duas organizações, talvez as mesmas pudessem mostrar ao mundo inteiro grandes realizações concretas. Como é que que se pretende que a Lusofonia seja reconhecida pelo mundo fora quando os organismos que visam a sua divulgação e promoção são os primeiros a rebaixá-la, com comportamentos inaceitáveis, como por exemplo, a infeliz história da compra de um mercedes para a presidente brasileira da CPLP, no momento em que se discutia uma ajuda humanitária a Moçambique. Este facto veio relatado nas colunas do insólito de muitos jornais quebequenses e canadianos.
A LUSOFONIA É UMA ESPAÇO MAIS AMPLO QUE O DOS OITO PAÍSES DA CPLP
Devem, por motivos óbvios, fazer parte da Lusofonia os países ou regiões seguintes: Macau, Galiza, Olivença, Goa, Damão, Diu, Aruba e Antilhas Neerlandesas, Ilhas Virgens e Porto Rico, Molucas (ID), Malaca (MY), Sri Lanka (antigo Ceilão),etc. É nesta perspectiva que poderemos integrar na Lusofonia a Galiza e Olivença que continuam a manter relações legais fortes (e talvez emocionais) com Portugal, e todas as regiões que tiveram e têm ainda uma antiga influência portuguesa como, Goa, Chandor, Damão, Diu, Malaca, etc.
SER-SE LUSÓFONO A maior parte (para não dizer a totalidade ) de nós nasceu e vive num dos 54 países que integram a Commonwealth ou num dos 51 que pertencem à Francofonia, usa o inglês e o francês nas suas relações quotidianas e até possui um nome anglófono ou francófono. Tecnicamente, não podemos fazer parte dos PALOP´S, nem da CPLP, ou seja, da "lusofonia oficial". Podemos comparar-nos aos Olivençanos ou Galegos, que reivindicam e manifestam os seus desejos de se afirmarem como lusófonos, sem que tal direito lhes seja oficialmente concedido apesar das afinidades. Porque é que um português ou um brasileiro têm mais direito ao adjectivo "lusófono" do que nós? Quantas vezes ao dia, eles repetem que sendo portugueses ou brasileiros não pertencem ao Universo da Lusofonia? Nós que estamos fora da Lusofonia oficiosa fazêmo-lo e refazêmo-lo todos os dias. De Diu à Califórnia, de Macau a Joanesburgo, passando por Kitimat, lusófono é aquele que em qualquer período da sua vida, conscientemente soube decifrar o homófono fun na palavra luso-FUN-ia. Lusófono, é ainda toda e qualquer pessoa, seja ela, pioneira, herói, imigrante, emigrante, aluno, professor ou qualquer outra individualidade, que a dado momento deu vida ou defendeu as seguintes palavras: LUSÍADA, LUSIFICAR, LUSOTANIANO, LUSITÂNIA, LUSITANIDADE, LUSITANISMO, LUSITANO, LUSO-AFRICANO, LUSO-BRASILEIRO, LUSO-CASTELHANO, LUSO-DESCENDENTE, LUSOFILIA, LUSÓFILO, LUSOFONIA, LUSÓFONO! Mais de que um conceito político-geográfico, a Lusofonia é um sentimento que temos dentro de nós que faz com que tenhamos gosto e orgulho em falar Português e em promover a língua de Saramago, de Pepetela, Mia Couto, Eugénia Neto, Gabriel Mariano, Jorge Amado, etc. A Lusofonia é
um traço de união entre cerca de 200 milhões de
pessoas que falam Português nos cinco cantos do mundo. A LUSOGRAFIA Estamos a viver um ressurgimento daquele fogo sagrado, daquele génio português cantado por numerosos poetas e que deu lugar à expansão marítima que permitiu a Portugal levar não somente a sua língua mas também a sua cultura a lugares tão distantes como o Japão ou as Molucas onde, ainda hoje, persistem traços culturais importantes. Durante as nossas viagens "ciberespaciais" que serviram de preparação a este texto, constatamos que Portugal está a desenvolver uma campanha linguística muito interessante a fim de promover a língua portuguesa, além fronteiras. Daí tem resultado, ainda que timidamente, o desenvolvimento de uma das componentes mais interessantes da Lusofonia, a Lusografia (isto pode parecer paradoxal porque Lusografia seria o antónimo de Lusofonia, isto é a parte escrita, a literatura de língua portuguesa). Verdadeiro terreiro de intercâmbio linguístico que Portugal deve aprender a respeitar e abster-se da tentação de " portugalizar", a qualquer preço a produção literária, porque é nele que reside uma grande parte da riqueza da lusofonia, terreiro de jogo linguístico, onde os escritores de Língua Portuguesa para além de poderem e deverem respeitar a estrutura da língua poderão e deverão acrescentar léxico, formas escritas, sintaxe e expressões próprias de cada país lusófono a que pertencem.
A LUSOFONIA NO CONTEXTO DO QUINTO IMPÉRIO: MAIS DO QUE UMA HERANÇA, A LUSOFONIA É UM DESAFIO. Uma das questões que muitos estudiosos da Língua e da Cultura Portuguesas têm colocado é a seguinte: A Lusofonia pode ser entendida no contexto do Quinto Império, conjugado o sonho utópico com um projecto cultural mais orientado para o poder espiritual do que para o poder temporal? Se considerarmos a Lusofonia como um conceito que traduz o amor à Língua Portuguesa e aos seus valores, a Lusofonia pode ser entendida no contexto do Quinto Império, arquitectado pelo Padre António Vieira e desenvolvido, depois por Fernando Pessoa. O sonho utópico do Quinto Império partilha com o programa da Lusofonia a visão de uma cultura comum fundada no princípio do génio dos povos, no princípio de valores artísticos e humanos. Hoje não se fala da autoridade sagrada e mítica, mas cada visão de uma cultura tem elementos de um sonho utópico e mítico. Como escreve o poeta . . . eles não sabem que o sonho comanda a vida. E que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança. O V Império, baseado na criação de uma civilização espiritual e esotérica, fundamenta-se no princípio do génio dos povos e da autoridade sagrada e não no do poder temporal, estando em relação directa com o mito do Sebastianismo. Embora as palavras (e os conceitos) de "império" de "autoridades" ou de "poder" espiritual não nos pareçam a linguagem adequada e moderna para descrever a Lusofonia, hoje, o que é facto é que se a Lusofonia não pode ser descrita como um espaço meramente linguístico, sendo, sobretudo, uma forma de civilização histórica para manter e promover a sobrevivência no espaço e no tempo do tipo de "homo lusitanus", nesse sentido o conceito de Lusofonia aproxima-se muito do conceito de Quinto Império. A Lusofonia é uma realidade, mas também um Projecto ou um Sonho e, por conseguinte, há também neste conceito, algo de utópico que não nos desagrada. Para além de ter uma herança de que poucos se podem orgulhar, a Lusofonia é acima de tudo, um desafio. Prosaicamente, a Lusofonia refere-se ao conjunto das identidades culturais existentes entre os países de língua oficial portuguesa. Idealmente, a Lusofonia pode ser considerada como o Quinto Império do século XXI, conceito que traduz a visão das relações de amizade e de enriquecimento cultural do mundo lusófono. E quem sabe, talvez esse novo mundo possa vir a constituir um novo Império, o V Império profetizado pelo Bandarra, mais tarde desenvolvido pelo Padre António Vieira e mais recentemente tema privilegiado na obra literária de Fernando Pessoa. A Lusofonia nem é uma organização concreta com uma orientação, liderança, orçamento e objectivos; não passa de um ideal nutrido por uma teia de relações entre as comunidades e povos lusófonos espalhados por todos os continentes do mundo. Produto do Império Português, a Lusofonia é um movimento pequeno se compararmos com a imensidão dos sonhos que a fundaram. Conhecidos hoje como os desenrascados lá vão os descendentes dos lusitanos continuando a sonhar e a realizar os seus sonhos. Para que se mantenha e se desenvolva a Lusofonia, os portugueses terão de fazer prova de audácia e de determinação na natural liderança do movimento, como nos tempos idos, mas desta vez tendo os brasileiros como companheiros de viagem. Mais do que uma herança, a Lusofonia é um desafio. Embora a Lusofonia seja, oficialmente, uma realidade, ainda que em começo de organização, ela tem de materializar-se no contexto do V Império, tal como o definiu o Padre António Vieira, primeiro, e Fernando Pessoa, depois, conjugando o sonho utópico com um projecto de uma cultura de língua portuguesa, imaginada por Agostinho da Silva. Sonho nosso, partilhado por todos os falantes de Português no mundo, quer integrem ou não as oito nações lusófonas. Tal é o que neste texto nos propomos defender, nós, que na sua maior parte, não integra nenhuma das nacionalidades oficiais da Lusofonia. Com efeito, as aulas permitiram-nos explicitar a nossa visão intuitiva, empírica e inconsciente de um projecto grandioso, até exaltante, a ser realizado como algo que se pode sonhar. Um sonho fabuloso, uma utopia, no sentido de algo que se poderia tornar realidade, se as circunstâncias - que agora conhecemos melhor - mudassem.
Tropa Fandanga
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