| Harold Pinter
n�o foi a Estocolmo receber o pr�mio A carta que o Nobel da Literatura escreveu ao j�ri Tradu��o de Jorge Silva Melo In Expresso 16 Dezembro 2005 http://online.expresso.clix.pt/1pagina/artigo.asp?id=24755970 |
Em 1958 escrevi: �n�o h� uma grande
diferen�a entre aquilo que � real e aquilo que � irreal, nem entre aquilo
que � verdade e aquilo que � falso. Uma coisa pode n�o ser nem verdadeira
nem falsa. Pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa.� Acho que esta afirma��o ainda faz sentido
e se aplica ainda � explora��o de realidade atrav�s da arte. Por isso,
enquanto escritor defendo esta afirma��o. Por isso o defendo enquanto
artista. Mas enquanto cidad�o n�o, enquanto cidad�o tenho de perguntar:
o que � que � verdade? O que � que � falso?" No teatro, a verdade esquiva-se sempre.
Quase nunca a encontramos, mas � for�oso andar em sua busca. A busca
� claramente aquilo que guia os nossos esfor�os. A procura � o nosso
trabalho. � muitas vezes no escuro que trope�amos na verdade, esbarramos
com ela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder
� verdade, mas muitas vezes tamb�m acontece n�o sabermos que o fizemos.
Mas a verdade mesmo � que n�o h� nunca uma s� verdade que possamos encontrar
na arte do teatro. H� muitas. Estas verdades desafiam-se umas �s outras,
repercutem, reflectem-se, ignoram-se, espica�am-se, s�o insens�veis
umas �s outras. �s vezes, pensamos que temos a verdade de um momento
na m�o, e ela escapa-se-nos por entre os dedos e perde-se. Muitas vezes me perguntam como nascem
as minhas pe�as. N�o sei dizer. Nem sei resumir nenhuma das minhas pe�as.
N�o sei descrever nenhuma. S� sei dizer: foi isto o que aconteceu, foi
isto o que disseram, foi isto o que fizeram. Muitas das pe�as come�aram com uma frase,
uma palavra ou uma imagem. � palavra junta-se quase logo uma imagem.
Vou dar o exemplo de duas frases que me vieram � cabe�a sei l� de onde
e a que logo se seguiu uma imagem, a que logo se seguiu eu. As pe�as s�o O Regresso A Casa e
H� Tanto Tempo. A primeira frase de O Regresso A Casa �:
�Onde � que puseste a tesoura?�. A primeira frase de H� Tanto Tempo
� �Escuro�. Em nenhum dos casos, eu n�o tinha mais
informa��es. No primeiro, era evidente que algu�m
estaria � procura de uma tesoura e estava a perguntar o que lhe fizera
algu�m que suspeita t�-la roubado. Mas eu, de certa maneira, sabia que
a pessoa a quem a pergunta era feira se estava nas tintas para a tesoura
ou mesmo para quem lhe fazia a pergunta. 'Escuro' achei que era a descri��o do
cabelo de algu�m, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a alguma
pergunta. Em qualquer dos casos, senti-me obrigado a prosseguir. Isto
passou-se visualmente, uma entrada lenta na luz, da sombra � luz. Quando come�o uma pe�a, chamo sempre
A, B ou C �s minhas personagens. Na pe�a que viria a ser O Regresso
A Casa, vi um homem entrar numa sala e fazer uma pergunta a um homem
mais novo que estaria sentado num feio sof� a ler um jornal de apostas
de cavalos. Tinha a ideia que A seria um pai e B um filho, mas n�o tinha
provas. Isso, no entanto, seria confirmado da� a nada quando B ( que
viria a ser Lenny) diz a A ( que viria a ser Max), �O pai importa-se
que eu mude de assunto? Queria fazer-lhe uma pergunta. Aquele jantar
que n�s comemos, como � que se chamava a comida? Qual � o nome que o
pai d� �quilo? Porque � que n�o compra um c�o? � um cozinheiro de c�es.
A s�rio. O pai acha que cozinha para c�es.� Ou seja, a partir do momento em que
B chama �Pai� a A, pareceu-me aceit�vel que fossem pai e filho. Tamb�m
A � claramente o cozinheiro e a sua arte n�o � muito apreciada. Querer�
isto dizer que n�o h� m�e? N�o sabia. Mas, tal como para mim mesmo me
disse, os nossos princ�pios n�o sabem dos nossos desenlaces. 'Escuro.' Uma janela grande. Um c�u
nocturno. Um homem, A ( que viria a ser Deeley), e uma mulher, B (que
viria a ser Kate), sentados a beber. 'Gorda ou magra?' pergunta o homem.
De quem � que estariam a falar? E nessa altura vejo, de p�, junto a
uma janela, uma mulher, C (que viria a ser Anna), iluminada de outra
maneira, de costas para eles, cabelo escuro. � um momento estranho, o momento de
criar personagens que nunca existiram at� essa altura. Aquilo que se
segue � incerto, inseguro, �s vezes alucinante - e �s vezes mesmo uma
avalanche que n�o p�ra. A posi��o do autor � estranha. Num certo sentido,
as personagens n�o o querem por l�. As personagens resistem, n�o s�o
de conv�vio f�cil, s�o de dif�cil defini��o. De certa forma, estamos
num jogo sem fim com elas, gato e rato, � cabra-cega, �s escondidas.
E acabamos por ter nas nossas m�os pessoas de carne e osso, pessoas
com desejos e com sensibilidade pr�pria, feitas de elementos que j�
n�o conseguimos alterar, manipular ou distorcer. � assim que a linguagem na arte continua
a ser uma transac��o extremamente amb�gua, uma areia movedi�a, um trampolim,
um lago gelado que a qualquer momento pode ceder ao nosso peso, ao peso
do autor. Mas, como disse, a busca da verdade
n�o pode parar. N�o pode ser adiada, n�o pode ser suspensa. Tem de ser
afrontada, e logo. O teatro pol�tico tem toda uma outra
s�rie de problemas. Tem de se evitar os serm�es a todo o custo. A objectividade
� essencial. As personagens t�m de poder respirar o seu pr�prio ar.
O autor n�o pode confin�-las nem obrig�-las a satisfazer-lhe o seu gosto
ou as prefer�ncias e tend�ncias que s�o as suas. Tem de estar preparado
para as observar sob uma grande variedade de �ngulos, um leque de perspectivas
diversas e sem preconceitos, apanh�-las de surpresa, talvez, de vez
em quando, mas deixando-lhes a liberdade de seguirem o seu pr�prio caminho.
Nem sempre funciona. E a s�tira pol�tica, � evidente, n�o obedece a
nenhum destes preceitos, est� exactamente no lado oposto, e essa a sua
fun��o principal. Na minha pe�a Feliz Anivers�rio,
creio ter lan�ado um grande leque de pistas que nos guiam por uma
densa floresta de possibilidades, at� me concentrar, no final, num acto
de submiss�o. L�ngua de Montanha
n�o funciona numa escala t�o aberta. � brutal, breve e feia. Mas os soldados
da pe�a conseguem divertir-se com a situa��o. As pessoas esquecem-se
que os torturadores se aborrecem facilmente. Precisam de gargalhadas
para manter o moral. Isto vimo-lo em Abu Ghraib em Bagdade. L�ngua
de Montanha dura s� 20 minutos, mas podia prolongar-se, horas e
horas, com o mesmo padr�o a repetir-se e repetir-se, hora ap�s hora.
Cinza �s Cinzas, por outro
lado, parece-me passar-se debaixo de �gua. Uma mulher que se afoga,
a m�o dela que emerge das vagas, que cai fora do alcance da nossa vista,
tentando alcan�ar outras m�os, mas sem encontrar ningu�m, nem por baixo
nem por cima da �gua, s� sombras, reflexos. A mulher � uma silhueta
perdida numa paisagem que se afoga, uma mulher que n�o � capaz de escapar
ao tr�gico destino que parecia pertencer apenas aos outros. Mas tal como eles morreram, tamb�m ela
morrer�. A linguagem pol�tica, tal como � usada
pelos pol�ticos, n�o se aventura por nenhum destes territ�rios, dado
que, na generalidade, os pol�ticos, naquilo que deles podemos ver com
clareza, est�o interessados n�o na verdade mas no poder e na manuten��o
desse poder. Para manter esse poder, � fundamental que as pessoas continuem
ignorantes, que vivam na ignor�ncia da verdade, e at� da verdade das
suas pr�prias vidas. Aquilo que nos rodeia � uma vasta tape�aria de
mentiras, sobre a qual nos vamos alimentando. Como qualquer um de n�s sabe, a invas�o
do Iraque foi justificada pelo facto de Saddam Hussein possuir um grande
arsenal de armas de destrui��o em massa, algumas das quais poderiam
ser activadas em 45 minutos, com efeito terrivelmente devastador. Garantiram
que era verdade. N�o era verdade. Disseram-nos que o Iraque tinha liga��es
com a Al Quaeda e partilhava a responsabilidade pelas atrocidades ocorridas
em Nova Iorque a 11 de Setembro de 2001. Garantiram que era verdade.
N�o era verdade. Disseram-nos que o Iraque era uma amea�a para a seguran�a
mundial. Garantiram que era verdade. N�o era verdade. A verdade � uma coisa inteiramente diferente.
A verdade tem a ver com o papel que os Estados Unidos julgam ter no
mundo e como escolhem encarn�-lo. Mas antes de voltar ao presente, quero
ir atr�s, at� ao passado recente. Quero eu dizer � pol�tica externa
dos Estados Unidos desde a II Guerra Mundial. Acho que temos a obriga��o
de analisar este per�odo de forma rigorosa, embora limitada pelo tempo
de que aqui dispomos. Todos sabemos o que aconteceu na Uni�o
Sovi�tica e em toda a Europa de Leste durante o per�odo do p�s-guerra:
a brutalidade sistem�tica, as atrocidades largamente difundidas, a brutal
irradica��o do pensamento independente. E tudo isso foi amplamente documentado
e verificado. Mas eu defendo aqui que os crimes que
os Estados Unidos cometeram nesse mesmo per�odo s� superficialmente
foram retidos, quanto mais documentados, e � se algu�m os reconheceu
como crimes. Creio que esta quest�o tem de ser colocada e que a verdade
tem uma rela��o evidente com o estado actual do mundo. Embora, at� certo
ponto, condicionadas pela ac��o da Uni�o Sovi�tica, as ac��es levadas
a cabo pelos Estados Unidos no mundo inteiro d�o claramente a entender
que eles se tinham autorizado uma carta branca para fazer aquilo que
queriam. A invas�o directa de um estado soberano
nunca foi, de facto, o m�todo preferido da Am�rica. Na maior parte dos
casos, sempre preferiu aquilo que qualifica como �conflito de baixa
intensidade�. �Conflito de baixa intensidade� quer dizer que h� milhares
de pessoas que morrem mas mais devagar do que se se lhes atirasse uma
bomba para cima. Quer dizer que se lhes infecta o cora��o do pa�s, que
se lhes injecta um tumor maligno e se fica a ver o crescimento da gangrena.
Quando o povo se rende - ou � espancado at� � morte, o que � a mesma
coisa - e que os amigos, os militares e as grandes empresas, se sentam
comodamente no poder, avan�am para frente das c�maras e dizem que a
democracia venceu. Isto foi um lugar comum recorrente na pol�tica externa
dos EU nos anos a que me refiro. A trag�dia da Nicar�gua � particularmente
significativa. Escolho-a aqui como exemplo claro da vis�o que a Am�rica
tem do seu papel no mundo, nessa altura como agora. No final dos anos 80, estive numa reuni�o
na Embaixada Americana em Londres. O Congresso dos EU ia decidir nessa
altura se iria dar mais dinheiro aos Contras na sua campanha contra
o estado da Nicar�gua. Eu integrava uma delega��o que representava a
Nicar�gua mas o membro mais importante desta delega��o era um Padre
John Metcalf. O chefe do campo americano era Raymond Seitz (nessa altura
numero dois da embaixada, mais tarde, embaixador ele pr�prio ). O Padre
Metcalf disse: "Tenho a meu cargo uma par�quia no norte da Nicar�gua.
Os meus paroquianos constru�ram uma escola, um centro de sa�de, um centro
cultural. Vivemos em paz. H� uns meses atr�s uma for�a dos Contra atacou
a nossa par�quia. Destru�ram tudo: a escola, o centro de sa�de, o centro
cultural. Violaram enfermeiras e professoras, massacraram os m�dicos
da forma mais brutal. Actuaram como selvagens. Por favor, pe�a ao Governo
dos Estados Unidos que retire o apoio que d� a esta actividade terrorista."
Raymond Seitz tinha fama de ser um homem
particularmente inteligente, respons�vel e altamente sofisticado. Era
muito respeitado nos c�rculos diplom�ticos. Ouviu, calou-se e depois
disse com alguma gravidade: "Padre", disse ele " deixe-me
eu dizer-lhe uma coisa. Numa guerra, as pessoas inocentes sofrem sempre."
Houve um sil�ncio glacial. Olh�mo-lo nos olhos. Ele nem pestanejou.
As pessoas inocentes, realmente, sofrem
sempre. At� que, por fim, algu�m disse: 'Mas
neste caso, as pessoas inocentes s�o v�timas de uma atrocidade sem nome
financiada pelo seu governo, e uma entre muitas. Se o Congresso conceder
mais dinheiro aos Contras, haver� mais atrocidades deste g�nero N�o
� assim? N�o ficar� o seu governo com a culpa de apoiar crimes de morte
e destrui��o de cidad�os de um estado soberano?' Seitz imperturb�vel. ' N�o creio que
os factos referidos demonstrem a vossa asser��o,' disse. Ao sairmos da Embaixada, um conselheiro
americano disse-me que ele apreciava o meu teatro. N�o respondi. Devo lembrar-vos que nessa altura o
Presidente Reagan afirmou o seguinte: 'Os Contras s�o o equivalente
moral dos nossos Pais Fundadores.' Os EU apoiaram a brutal ditadura de
Somoza na Nicar�gua por mais de 40 anos. O povo da Nicar�gua, liderado
pelos Sandinistas, fez cair este regime em 1979, uma arrebatadora revolu��o
popular. Os Sandinistas n�o eram perfeitos. Tinham
a sua parte de arrog�ncia e a sua filosofia pol�tica continha in�meras
contradi��es. Mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Queriam
instaurar uma sociedade decente, pluralista, est�vel. Aboliram a pena
de morte. Centenas de milhares de camponeses marginalizados pela mis�ria
viram renascer a esperan�a. Mais de 100.000 fam�lias tiveram direito
a terra. Foram constru�das 2.000 escolas. Uma brilhante campanha de
alfabetiza��o reduziu a iliteracia at� menos de 7%. Foi criada a educa��o
gratuita e o servi�o de sa�de gratuito. A mortalidade infantil foi reduzida
de um ter�o. A poliomielite foi erradicada. Os EU acusaram estes feitos de subvers�o
marxista-leninista. De acordo com o governo dos EU, a Nicar�gua estava
a dar um exemplo perigoso. Se continuasse a estabelecer normas elementares
de justi�a social e econ�mica, se continuasse a elevar o grau dos cuidados
de sa�de e educa��o, se conseguisse atingir uma uni�o social e um auto-respeito
nacional, os pa�ses lim�trofes haveriam de levantar as mesmas perguntas
e fazer as mesmas coisas. Em El Salvador, havia, simultaneamente, uma
bizarra resist�ncia ao statuo quo. Falei j� de uma "tape�aria de mentiras"
que nos envolve a todos. O Presidente Reagan qualificava a Nicar�gua
como 'uma masmorra totalit�ria'. Isto acabou por ser aceite pelos m�dia
- e certamente pelo governo brit�nico - como um coment�rio adequado.
N�o havia, no entanto, tra�a de esquadr�es da morte no governo sandinista.
N�o havia tra�a de torturas. N�o havia tra�a de brutalidade militar,
sistem�tica e oficial. Nenhum padre foi assassinado na Nicar�gua. Havia
mesmo tr�s padres no governo, dois Jesu�tas e um mission�rio Maryknoll.
As masmorras totalit�rias estavam mesmo ao lado, em El Salvador e na
Guatemala. Os EU tinham feito cair o governo democraticamente eleito
da Guatemala em 1954 e estima-se em mais de 200.000 o n�mero de vitimas
das sucessivas ditaduras militares. Seis dos mais eminentes jesu�tas do
mundo foram trai�oeiramente assassinados na Universidade de San Salvador
em 1989 por um batalh�o do regimento Alcatl treinado em Fort Benning,
Georgia, EU. Aquele homem particularmente corajoso, o Arcebispo Romero
foi assassinado ao dizer missa. Estima-se em 75,000 o n�mero de mortos..
Porque � que foram mortos? Foram mortos porque acreditaram que era poss�vel
uma vida melhor e que se devia lutar por ela. Essa convic��o fez com
que fossem acusados de ser comunistas. Morreram porque ousaram questionar
o status quo, o intermin�vel horizonte de pobreza, doen�a, decad�ncia
e opress�o que foi o que tiveram como direitos ao nascer. Os Estados Unidos acabaram por fazer
cair o governo Sandinista . Demorou uns anos, encontrou uma resist�ncia
consider�vel mas a persegui��o econ�mica sem tr�guas e os 30.000 mortos
acabaram por fazer quebrar a determina��o do povo da Nicar�gua. Estavam
exaustos e a mis�ria regressara. Os casinos voltaram. A educa��o e a
sa�de gratuitas acabaram. As grandes empresas voltaram, vingativas.
A "democracia" venceu- Mas esta "pol�tica" n�o diz
apenas respeito ao que se passa na Am�rica Central. Foi levada a cabo
em todo o mundo. N�o tem fim. E � como se nunca tivesse acontecido.
Os Estados Unidos apoiaram e em muitos
casos estiveram na origem de todas as ditaduras militares da direita
no mundo desde o final da II Guerra Mundial.
Estou a falar da Indon�sia, Gr�cia, Uruguay, Brazil, Paraguay, Haiti,
Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador, e, � claro, do Chile. O
horror que os EU fizeram abater sobre o Chile em 1973 n�o poder� nunca
ser expiado nem esquecido. Ocorreram centenas de milhares de mortes
nestes pa�ses. Mas ocorreram? E podem ser atribu�das � pol�tica externa
dos EU? A resposta � sim e que elas s�o da responsabilidade da pol�tica
externa dos EU. Mas nunca o saber�amos. Nunca nada aconteceu. Nada aconteceu.
Mesmo quando estava a acontecer, n�o aconteceu. N�o tinha import�ncia,
N�o tinha interesse. Os crimes dos EU s�o sistem�ticos, regulares, viciosos,
sem remorso mas poucos s�o os que falam deles. E a responsabilidade
� da Am�rica. Exerceu uma manipula��o de poder mundial a um n�vel quase
cir�rgico ao mesmo tempo que se disfar�ava em for�a do bem universal.
� uma hipnose brilhante, esperta, altamente conseguida. Afirmo-vos que os EU s�o sem sombra
de d�vida quem, neste momento, tem em cena o maior espect�culo do mundo.
Poder� parecer brutal, indiferente, desdenhoso e impiedoso mas � inegavelmente
muito esperto. Tal como um caixeiro viajante, trabalha por conta pr�pria
e a mercadoria com mais sa�da � a auto-estima. � um vencedor. Ou�am
como os presidentes dos EU dizem na televis�o " o povo americano",
como na frase " Digo ao povo americano que � tempo de rezar e de
defender os direitos do povo americano e pe�o ao povo americano que
confie no seu presidente na ac��o que vai iniciar em defesa do povo
americano. O estratagema � brilhante. A linguagem
� realmente usada para obscurecer o pensamento. A express�o "o
povo americano" comporta em si uma voluptuosa almofada que nos
d� confian�a. N�o � preciso pensar. Basta aconchegarmo-nos sobre a almofada.
Pode ser que a almofada esteja a sufocar a intelig�ncia e as faculdades
cr�ticas mas � t�o confort�vel. Isto, � claro, n�o se aplica aos 40
milh�es de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza e dos 2 milh�es
de homens e mulheres que est�o presos no vasto gulag de pris�es que
se estende ao longo dos EU. Os EU j� n�o se preocupam com os conflitos
de baixa intensidade. J� n�o v�m qualquer interesse em dar provas de
reserva ou sequer de manhas. Atiram para cima da mesa as cartas sem
medo. Est�o-se realmente nas tintas para as Na��es Unidas, a lei internacional
ou as cr�ticas, que consideram n�o ter qualquer poder ou import�ncia.
E ainda levam atr�s de si, � trela, o pequeno cordeirinho que � a pat�tica
e submetida Gr� Bretanha. O que aconteceu com a nossa sensibilidade
moral ? Alguma vez a tivemos? O que quer dizer esta express�o? Refere-se
a um termo pouco usado nestes dias - consci�ncia? Uma consci�ncia de
agir n�o apenas com os nossos pr�prios actos mas com a responsabilidade
partilhada nas ac��es dos outros? J� tudo isto morreu? Olhe-se para
a Ba�a de Guantanamo. Est�o l� centenas de pessoas presas sem acusa��o,
h� mais de tr�s anos, sem representantes legais, tecnicamente em pris�o
perp�tua. Esta estrutura totalmente ileg�tima � mantida � revelia da
Conven��o de Genebra. E � tolerada ou vista como se n�o existisse por
aquilo a que se chama "a comunidade internacional". Este crime
escandaloso est� a ser perpetrado por um pa�s que se intitula "
defensor do mundo livre". Pensamos nos prisioneiros de Guantanamo?
O que dizem os m�dia acerca deles? De vez em quando espreitam, d� uma
pequena nota na p�gina 6. Foram confinados a uma terra de ningu�m de
onde provavelmente nunca regressar�o. Neste momento, h� alguns que est�o
em greve da fome, alimentados � for�a, e alguns s�o brit�nicos. N�o
h� delicadeza nesta alimenta��o for�ada. Nem sedativos nem anest�sicos.
S� um tubo enfiado pelo nariz e que vai at� � garganta. Vomita-se sangue.
Isto � uma tortura. O que dizem os Neg�cios Estrangeiros brit�nicos
acerca disto? Nada. O que diz o primeiro ministro brit�nico? Nada. E
porque n�o? Porque os EU disseram: criticar a nossa ac��o em Guantanamo
� um acto hostil. Ou est�o connosco ou contra n�s. E, portanto, Blair
cala-se. A invas�o do Iraque foi um acto de banditismo,
um acto de terrorismo de estado, demonstrando um total desprezo pela
no��o de lei internacional. A invas�o foi uma ac��o militar sustentada
por uma s�rie de mentiras, enorme manipula��o dos media e por conseguinte
do p�blico; um acto que deveria consolidar o dom�nio militar e econ�mico
da Am�rica no M�dio Oriente disfar�ado em ultima inst�ncia de liberta��o
- uma vez que todas as outras justifica��es ru�ram. Uma formid�vel asser��o
de for�a militar respons�vel pela morte e mutila��o de milhares e milhares
de inocentes. Lev�mos tortura, bombas de fragmenta��o,
ur�nio empobrecido, matan�as cometidas ao acaso, mis�ria, humilha��o
e morte e chamamos a isso "levar ao M�dio Oriente a liberdade e
a democracia". Quantas pessoas � preciso matar at�
se ser qualificado como um assassino de massas e um criminoso de guerra?
Uma centena de milhar? Mais do que o necess�rio, julgaria eu. Por isso
creio que � justo que Bush e Blair sejam levados ao Tribunal Internacional
de Justi�a Mas Bush foi esperto. Nunca ratificou o Tribunal Internacional.
Por isso, se alguma vez um soldado americano ou melhor ainda um pol�tico
alguma vez estiver no banco dos r�us, Bush disse que enviaria os marine.
Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e est� assim sujeito a um processo.
Podemos dar a sua morada ao Tribunal, no caso de estarem interessados.
� o n�mero 10 da Downing Street, London. Neste contexto, a morte n�o tem qualquer
import�ncia. Quer Bush quer Blair conseguem muito bem passar ao seu
lado. J� pelo menos 100.000 Iraquianos foram mortos por bombas e m�sseis
americanos - e antes de ter come�ado a revolta iraquiana. Essas pessoas
n�o s�o de tempo nenhum. As suas mortes n�o existem. Nada s�o. Nem sequer
s�o lembradas como mortas. " N�o fazemos contagem de corpos",
disse o general americano Tommy Franks. Mal come�ou a invas�o, surgiu na primeira
p�gina dos jornais brit�nicos uma fotografia de Tony Blair dando um
beijo a um menino iraquiano. "Uma crian�a agradecida", dizia
a legenda. Dias depois havia uma hist�ria e uma fotografia, numa p�gina
interior, de um outro menino de 4 anos sem bra�os. A fam�lia fora dizimada
por um m�ssil. Ele � o �nico sobrevivente. "Quando � que volto
a ter bra�os?", perguntava. E a hist�ria foi esquecida. � que Tony
Blair n�o estava com ele ao colo nem tinha ao colo nenhuma outra crian�a
mutilada, nem nenhum cad�ver ensanguentado. O sangue � sujo. Suja a
camisa e a gravata e � preciso um discurso sincero na televis�o. Os 2.000 mortos americanos s�o um embara�o.
S�o transportados para os seus t�mulos durante a noite. Os funerais
fazem-se na maior discri��o, em lugares seguros. Os mutilados apodrecem nas camas, alguns
para o resto das suas vidas. E assim mutilados e mortos apodrecem todos,
em diferentes esp�cies de t�mulos. Eis uma passagem de um poema de Pablo
Neruda: E uma manh� tudo o que ardia Uma manh� as queimadas Levantaram-se da terra Devorando os seres humanos E deste ent�o foi o fogo A p�lvora desde ent�o Foi o sangue. Bandidos com avi�es e mouros Bandidos de alian�a e duquesas Bandidos com monges negros que os benziam
Vieram pelos c�us para matar crian�as
E o sangue das crian�as correu pelas
ruas Simplesmente, como o sangue das crian�as.
Chacais que os chacais desprezariam
Pedras em que at� os cardos secos cuspiriam
V�boras que as v�boras abominariam Cara a cara contigo tenho visto o sangue
De Espanha levantar-se como uma mar�
Que te arrasta numa vaga De orgulho e facas. Trai�oeiros generais: vede a minha casa morta, vede a Espanha quebrada: de cada casa corre metal fundente em vez de flores de cada fenda de Espanha surge a Espanha mas de cada crian�a morta levanta-se
uma espingarda com olhos mas de cada crime nascem balas que um dia h�o-de encontrar o lugar dos vossos cora��es. E perguntam; porque n�o fala a sua poesia
De sonhos e plantas E dos grandes vulc�es da sua terra natal.
Venham ver o sangue nas ruas. Venham ver O sangue nas ruas Venham ver o sangue Nas ruas! * Que fique bem claro que ao citar este
Neruda, n�o estou de modo algum a comparar a Espanha Republicana ao
Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em mais nenhuma poesia
contempor�nea consegui eu ler uma t�o poderosa e visceral descri��o
do que � um bombardeamento de civis. Disse antes que agora os EU j� s�o totalmente
francos ao atirarem as cartas para a mesa. � assim mesmo. A sua pol�tica
oficial define-se como um "'full spectrum dominance'. ( dom�nio
total em todas as frentes). Os termos n�o s�o meus, s�o deles. E 'full
spectrum dominance' significa dom�nio da terra, mar, ar e espa�o e de
todos os bens neles existentes. Os EU ocupam hoje 702 instala��es militares
espalhada pelo mundo em 132 pa�ses, com a honrosa excep��o da Su�cia,
claro. N�o sabemos como conseguiram chegar l�, mas que l� est�o, l�
isso est�o. Os EU possuem 8.000 ogivas nucleares
activas e operacionais. 2.000 est�o em alerta m�ximo, prontas a serem
lan�adas em 15 minutos. Est�o a desenvolver novos sistemas nucleares
chamados "bunker busters" ( destruidores de bunkers). Os brit�nicos,
sempre cooperantes, tencionam substituir o seu pr�prio m�ssil nuclear,
o Trident. Quem, pergunto-me eu, querem eles atingir? Ossama bin Laden?
Tu? Eu? O Z� da esquina? China? Paris? Quem sabe? O que sabemos � que
esta ins�nia infantil - a posse e a amea�a ao recurso de armas nucleares
est� no pr�prio cora��o da actual filosofia pol�tica americana. Temos
de nos lembrar que os EU est�o em permanente p� de guerra e n�o se v�
sinais de que isso abrande. Muitos milhares,
se � que n�o milh�es de pessoas nos pr�prios EU, est�o manifestamente
cheios de vergonha e irados contra as ac��es do seu governo mas de momento
ainda n�o s�o uma for�a pol�tica coerente - de momento. Mas a incerteza,
a ansiedade, o medo que vemos diariamente crescer nos EU n�o parece
ir diminuir t�o cedo. Sei que o Presidente Bush tem muitos
autores dos seus discursos extremamente competentes. Mas eu gostava
de me candidatar tamb�m a esse lugar. E proponho esta breve alocu��o
que ele pode fazer � Na��o atrav�s da Televis�o. Vejo-o com um ar grave,
cabelo muito penteado, s�rio, combativo, sincero, �s vezes encantador,
com um sorrisinho for�ado, com certo poder de sedu��o, homem comum entre
os homens comuns. ' Deus � bom. Deus � grande . Deus �
bom. O meu Deus � bom. O Deus de Bin Laden � mau. � um mau Deus. O Deus
de Saddam era mau, s� que ele n�o tinha nenhum.. Era um b�rbaro. N�s
n�o somos b�rbaros. N�o cortamos a cabe�a das pessoas. Acreditamos na
liberdade. E Deus tamb�m acredita. Eu n�o sou um b�rbaro. Sou o chefe
democraticamente eleito de uma democracia amante da liberdade. Somos
uma sociedade tolerante. Damos electrocuss�o tolerante e injec��es letais
tolerantes. Somos uma grande na��o. N�o sou um ditador. Ele �. N�o sou
um b�rbaro. Ele �. E ele. Eles todos. Eu tenho autoridade moral. V�s
este punho fechado? � esta a minha autoridade moral. E n�o se esque�am
disso." A vida de um escritor � uma actividade
muito vulner�vel, quase nua. N�o vamos ter pena dela. O escritor escolheu
isso e mant�m-se a�. Mas � verdade dizermos que fica exposto a todos
os ventos, e alguns s�o glaciais. Est�-se realmente sozinho. Sem amparo.
Sem protec��o - a menos que se minta, e ter�s com isso constru�do a
tua protec��o, e poder�amos passar a dizer, tornaste-te pol�tico. J� esta noite me referi v�rias vezes
� morte. Vou ent�o ler-vos um poema meu chamado Morte Onde foi o corpo morto encontrado? Quem encontrou o corpo morto? Estava morto o corpo morto quando foi
encontrado? Como foi o corpo morto encontrado? Quem era o corpo morto? Quem era o pai ou filha ou irm�o Ou tio ou irm� ou m�e ou filho Do corpo morto e abandonado? Estava morto o corpo quando foi abandonado?
O corpo foi abandonado? Por quem foi ele abandonado? Estava o corpo morto nu ou vestido para
viagem? O que te fez declarar morto o corpo
morto? Declaraste morto o corpo morto? Conhecias bem o corpo morto? Como soubeste que o corpo morto estava
morto? Ser� que lavaste o corpo morto Ser� que lhe fechaste ambos os olhos
Ser� que enterraste o corpo Ser� que o deixaste abandonado Ser� que beijaste o corpo morto Quando olhamos um espelho, pensamos
que a imagem � nossa frente � exacta. Mas basta movermo-nos um mil�metro
e a imagem altera-se. Aquilo que estamos realmente a ver � uma s�rie
infind�vel de reflexos. Mas �s vezes o escritor tem de quebrar o espelho
- porque � do outro lado do espelho que a verdade nos espera de frente.
Estou convicto de que, a pesar dos in�meros
obst�culos que existem, n�s, cidad�os, com uma feroz determina��o intelectual,
inquebr�vel, sem desviar, conseguiremos definir a verdade real das nossas
vidas e das nossas sociedades - e essa � uma obriga��o crucial que nos
diz respeito. � de facto obrigat�ria. Se essa vontade n�o estiver incorporada
na nossa vis�o pol�tica, n�o tenhamos esperan�a de restaurar aquilo
que j� quase se perdeu para n�s - a dignidade do homem. Harold Pinter |