N' ZAU PUNA:
EM MONTREAL SINTO
ANGOLA MAIS PERTO!


Por
Luís Aguilar

 


O Embaixador de Angola a ser entrevistado
por Luís Aguilar na companhia de António Magalhães e
Arlindo Vieira

Pôde o autor que assina esta reportagem reviver, aqui, em Montreal, as alegrias, a abertura de espírito, a anarquia, a solidariedade, a generosidade, o sentido do encontro e a sensualidade, que na sua infância, há mais de trinta anos, viveu em Luanda. Esqueceu-se e esqueceram-se as pessoas que comeram, beberam, conviveram e dançaram, neste 11 de Novembro de 2000, em que se festejou um quarto de século da Independência de Angola, que nesse país ocorre tudo o que de mais contrário tem a ver com as características do povo angolano. Quem, por aqui, se quer lembrar disso? Tristezas não pagam dívidas. E, por paradoxal que possa parecer, quem pagou toda essa festa foi o Governo de Angola: mais de 20.000 dólares, a acreditar no que nos disseram. Festa é festa! À Angolana, agora, como há trinta anos.

Grande lição de democracia, de diálogo, de diplomacia, de dinamismo, de prazer e alegria de viver nos deram, neste 11 de Novembro, os angolanos que, ao recorrerem ao restaurante português Casa Minhota - que serviu a jantarada - com cinco pratos diferentes, fez com que os presentes comessem e bebessem até não poderem mais: bacalhau à Gomes de Sá, arroz de marisco, feijoada à transmontana, bife com batatas, tudo regado com bom vinho - que pena foi não ter sido português - e muitos digestivos e sobremesas à mistura. Para todos. À angolana. O povo angolano é um povo generoso e quando vejo o que se está a passar aqui em Montreal sinto Angola mais perto - começou por revelar-nos, Miguel N'Zau Puna, que já foi apoiante de Savimbi e que agora representa o governo de José Eduardo dos Santos. Neste momento o seu discurso é, certamente, diferente do de outrora: Eu sei que a alegria que estou a sentir aqui é a mesma alegria que muitas pessoas estão a sentir em muitas cidades de Angola que e que festejaram já o 25o Aniversário da independência de Angola - continuou. Nesta sua visita a Montreal, o Embaixador de Angola no Canadá, Miguel N'Zau Puna, estava acompanhado do então Ministro Leovigildo da Costa e Silva. Ambos puderam explicar a estratégia política definida pelo governo de Luanda e expressar o seu contentamento pela forma como as celebrações do vigésimo quinto aniversário da independência de Angola estavam a decorrer em Montreal:

N'Zau Puna: O nosso objectivo é de difundir esta alegria em todas as províncias de Angola que ainda não estão em paz e que vivem as calamidades da guerra. Desejamos que esses compatriotas possam também encontrar a felicidade juntos, como os angolanos o fazem aqui, em paz .

Luís Aguilar: O Senhor embaixador, tem referido, insistentemente, que estaria aqui para apoiar ou para encorajar os angolanos independentemente das suas cores políticas. Até que ponto, a aceitação de valores opostos é do domínio da realidade?

N'Zau Puna: Devo dizer que muitos angolanos exilados no Canadá saíram de Angola numa fase conturbada da vida política do país e ainda pesa sobre si o espectro das calamidades provocadas pela guerra. Mas estou convicto de que, pouco a pouco, os angolanos aqui residentes vão compreender que a realidade angolana agora é outra. O Presidente de Angola está a fazer esforços para que todas as forças políticas se revejam em todos os angolanos, independentemente das suas ideologias. Aqui, todos os que precisam de apoio não encontrarão a porta da embaixada fechada, quer sejam apoiantes do partido do governo, quer sejam apoiantes de qualquer outra formação política. Nós estamos aqui para representar Angola e não os partidos e as ideologias.


Leovigildo da Costa e Silva, Ministro Conselheiro e
Luís Aguilar

Leovigildo da Costa e Silva, Ministro Conselheiro: Antes de mais gostaria de agradecer a oportunidade que me dá para que me dirija à grande comunidade que é a Comunidade Lusófona, enquadrada na CPLP. Eu secundo perfeitamente a opinião do Senhor Embaixador pois, com efeito, existe aqui em Montreal uma comunidade que saiu de Angola essencialmente por causa da guerra, o que não impede que tenham convidado e tenham obtido o apoio e a participação activa de representantes do governo, que compreende perfeitamente a sua situação.

Luís Aguilar: Como é que há tantos angolanos que saíram do seu país, e entre eles estão muitos que o fizeram por razões políticas e convivem, amigavelmente, com o embaixador que representa o Governo de Angola? Terá que convir que não é um facto vulgar. Por exemplo, quando nós portugueses, exilados políticos em França, por estarmos contra a ditadura de Salazar e de Caetano e contra a guerra colonial, não nos passava pela cabeça conviver, festejar ou mesmo falar com o embaixador português, representante de um governo que nos impunha o exílio. Deixe que lhe diga que a situação é, no entanto, um bocado esquisita. Deve ser, certamente, uma característica particular do povo angolano. Insisto, os refugiados ou aqueles que saem do seu país geralmente não convidam o embaixador que representa o país que os obrigou a abandoná-lo! Os exilados portugueses no estrangeiro, que estavam contra a guerra colonial no tempo do Salazar, faziam as suas festas e não convidavam o embaixador. Isto só mesmo em Angola é que acontece.

N'Zau Puna: Aceito que seja um caso sui generis. Há angolanos que se refugiaram num país estrangeiro por causa da situação da guerra e não necessariamente porque estejam contra o regime. O que nós queremos é a reconciliação de todos os angolanos, para que haja paz. Só assim Angola poderá avançar no processo de reconciliação nacional, na paz e na fraternidade. É nesta óptica que eu aqui estou. A luta que se trava em Angola tem a sua razão de ser e tem de ser compreendida pelos angolanos. Primeiro foi o colonialismo, depois foi a presença estrangeira em Angola e hoje há a guerra civil, guerra civil à qual temos de dizer basta. O povo está cansado, o povo quer paz. Connosco estão todos aqueles que querem a paz. Que querem dialogar, conversar, sobre o que é melhor para Angola. O povo encontrará da nossa parte o acolhimento desejado porque o tempo da agressão está ultrapassado. Nós queremos que o diálogo predomine sem o recurso à violência. Agora todos aqueles que ainda recorrem à violência e que ignoram a prática democrática, esses estão a ir contra os princípios universais de todos os direitos do homem e da democracia. Por isso, é que eu pretendo abrir as portas a todos os angolanos. Que nos vejam como representantes de Angola, Angola de que eles também fazem parte e, por isso, são bem-vindos. Nós vamos trabalhar para aqueles que hesitam em compreender esta nova óptica da diplomacia do nosso país, de maneira a retirar toda essa hesitação. Mas mesmo aos mais cépticos e que não quiserem nenhuma aproximação connosco não lhes vamos fazer guerra porque estamos num país democrático, estamos no Canadá, cuja democracia é necessariamente diferente da nossa: mais antiga.

Leovigildo da Costa e Silva:Repare: hoje estamos numa fase diferente, hoje já não há os dois mundos da guerra fria e pensamos que o mundo tende para a democratização de todos os estados. É certo que nós temos uma diáspora fora, chamados refugiados políticos, mas se quisermos verdadeiramente encarar a situação teremos que verificar que não são totalmente refugiados políticos como era o caso dos portugueses no tempo de Salazar. Hoje há uma guerra em Angola e os reflexos dessa guerra tendem normalmente para a miséria e para uma situação de instabilidade, o que faz com que percebamos que as autoridades estrangeiras atribuam o estatuto de refugiados políticos a grande número de angolanos que aqui reside. Fugir por causa de uma situação política e refugiar-se por motivos económicos são realidades diferentes. Estamos esperançados que aqueles que ainda teimam em atingir o poder pela força, tarde ou cedo chegarão à conclusão que não vale a pena e que estão a criar dificuldades que vão marcar gerações e gerações. Esperamos que esses indivíduos um dia possam respeitar a vontade de todo o povo que é o escrutínio eleitoral e que estejam prontos para a guerra da democracia aquela que se faz no parlamento, que se faz na sociedade, diariamente.

Luís Aguilar: Está a falar da intolerância de Jonas Savimbi, é isso?

Leovigildo da Costa e Silva:Sim. Como sabe, o senhor Savimbi, desde os acordos de Bicesse, dos acordos de Lusaca, passando por uma série de acordos a que ele próprio se comprometeu, nunca chegou a honrar esses compromissos. Quer isto dizer que ele só tem um objectivo: atingir o poder pela força. Mas a capacidade de fogo das forcas armadas angolanas, onde estão integrados elementos que saíram das ordens de Savimbi, são forças armadas compactas, unidas e com grande poder. Temos um grande exército capaz de amedrontar os rebeldes e belicistas e encaminhá-las no sentido da sedimentação da democracia e do desenvolvimento do nosso país.

Vinte e cinco anos passados sobre a independência de Angola, decretada a 11 de Novembro de 1975, altura em que os portugueses se debatiam com um tórrido clima político que invadia Portugal, com o Parlamento cercado, lembram também um quarto de século em que quase tudo correu mal em Angola, que não pôde contar nem com a imparcialidade de Portugal, nem com a gestão provisória da potência ex-colonizadora, nem com nada. Portugal fazia a sua própria descolonização de Portugal. E se em Angola, a 11 de Novembro de 1975, a independência estava a ser decretada sobre uma nuvem que anunciava a tempestade da guerra civil, em Portugal também se preparavam as pessoas para a guerra civil, estando, nessa altura, o povo a ser armado pelos partidos políticos, para irem para a luta a que, felizmente, o 25 de Novembro do mesmo ano pôs cobro. Nessa altura, Angola contava já com 14 dias como país independente. Estava, então, à espera de Portugal, que se adiava noutras urgências. As suas.

Luís Aguilar:As relações de Portugal com Angola, continuam a ser relações difíceis uma vez que Portugal tem a ideia de que o governo de Angola se enquadra no estilo de regime totalitário e corrupto.

Leovigildo da Costa e Silva: Eu não acho que todo o povo português tenha integralmente essa ideia. Temos de ver isto do ponto de vista histórico e nesse sentido, temos de recuar um bocado no tempo e no espaço e chegarmos à conclusão que, felizmente, as relações entre Portugal e as ex-colónias foram, digamos, equilibradas. Há sempre remorsos e quezílias que restam, mas dizer que o governo de Angola é um governo totalitário é talvez a ideia das pessoas que desconhecem o processo angolano. Porque, veja, há um parlamento, há vários partidos, vários jornais e há uma cultura prática, mas nós também temos que ter consciência que aquilo que os países europeus exigem de Angola, eles atingiram ao longo de vários séculos. Não venham pedir a Angola que atinja em meia dúzia de anos o mesmo. Há um adágio que diz "Roma e Pavia não foram feitos num dia". É preciso dar tempo ao tempo porque, para se formar um país verdadeiramente democrático, na verdadeira essência da palavra, é preciso recorrer à cultura, é preciso construir escolas e universidades, hospitais. Mas hoje, infelizmente, somos um povo com cerca de 78% de analfabetos e quando há analfabetismo é difícil haver progresso, é difícil haver desenvolvimento da democracia. É isto que Portugal e a comunidade internacional têm de compreender e, na medida do possível, ajudar o governo, em vez de estarem a etiquetá-lo disto ou daquilo.

Luís Aguilar: Mas o Governo de Angola tem feito duras críticas a Portugal.

Leovigildo da Costa e Silva:Não , Angola não tem feito duras críticas a Portugal. Angola tem óptimas relações com o governo. O que há é conflitos com alguns círculos de portugueses.

Luís Aguilar:Reaccionários?

Leovigildo da Costa e Silva:: Não direi reaccionários, mas que compreendem mal a situação actual. Talvez sejam os lóbis que tentem criar obstáculos ao verdadeiro processo democrático angolano que não lhes interessa. Estou, sinceramente convencido, que este é um processo evolutivo, com verdadeiras aspirações democráticas, na verdadeira essência da palavra.

Luís Aguilar: Como pensa que as relações entre Portugal e Angola podem ser fortalecidas?

Leovigildo da Costa e Silva: Penso que é à volta da Língua Portuguesa. O trabalho que, a esse nível, você está aqui a desenvolver na Universidade de Montreal em prol da difusão e promoção da Língua Portuguesa é um trabalho meritório e necessário. Sinceramente desejo que tenha o apoio de todas as nossas comunidades lusófonas no sentido de levar a bom porto o óptimo trabalho que está aqui a fazer.

Os Angolanos quiseram assinalar o vigésimo quinto aniversário da Independência de Angola com uma festa que há muito não se via em Montreal. Sublinhamos, ainda, nesta festa da independência, a saída do primeiro número do jornal O Imbondeiro, órgão oficial da Associação dos Amigos de Angola de Montreal, organizadora desta festa grossa que, uma vez mais, teve o mérito de alargar ao máximo as fronteiras do espaço lusófono. Com efeito, pudemos falar com o Cônsul Geral de Portugal, Dr. Nuno Bello Mello, com o Cônsul Geral do Brasil, Dr. Fernando Jacques Pimenta, com o Presidente do Conselho das Comunidades, Dr. Arlindo Vieira, com o Ministro Conselheiro de Angola, Dr. Leovigildo da Costa e Silva, com o Senhor Embaixador de Angola, Miguel Zau Puna. Das conversas que mantivemos com estes dois últimos, bons conversadores e com uma invulgar capacidade de diálogo, demos conta nesta reportagem.

António Magalhães, Presidente da Associação dos Amigos de Angola em Montreal, o homem que tem, contra ventos e marés, sabido juntar os lusófonos, fazendo de Montreal a capital dos PALOP's e José Manuel Costa, incansável, para dar à luz O Imbondeiro, são os principais protagonistas da organização deste evento. José Figueiredo, Vice-Presidente desta associação, Nestor e Sócrates foram também grandes dinamizadores desta festa de arromba com mais de trezentas pessoas. E com José Figueiredo, vamos no futuro bater a bolinha baixo, já que depois da sua demonstração de Karaté, ficamos conversados.

Aqui em Montreal, apercebemo-nos, no seio da comunidade angolana, do imenso potencial humano, da grande criatividade, do enorme prazer de partilhar o que se tem e, sobretudo, da incomensurável capacidade de dialogar. É isto que os angolanos sabem fazer. É isto que os angolanos anseiam vir a fazer, de novo na sua imensa terra, hoje usurpada, minada, pobre. O povo angolano e os diplomatas, aqui tão nobremente representados, parecem nada ter a ver com os interesses mesquinhos e mentalidades obsoletas de quem, em Angola, persiste em destruí-la. Esse povo e os representantes do governo do seu país, que na maior alegria, de que só mesmo os angolanos são capazes, alimentam a esperança de que termine a guerra e que Angola se cumpra.