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Porque
considero muito importante o tema das raízes, mediterrâneas
(pela proximidade do Mar Mediterrâneo, com as influências
pré-históricas e históricas - o tipo humano
mediterrâneo e as culturas: Fenícia, Grega, Romana,
Mourisca, sem esquecer as influências mais ou menos "bárbaras"
- Visigodos, Bourbões e outros ), ibéricas e portuguesas
que, com a língua, constituem a realidade cultural e linguística
a que chamamos Lusofonia. Talvez seja interessante resumir a minha
visão pessoal da Lusofonia por uma alegoria inspirada na
Natureza.
Nesta perspectiva, a Lusofonia seria uma árvore gigante,
ou uma família de árvores, cujos primeiros ramos brotariam,
de um contexto mediterrâneo, na parte mais Ocidental da Península
Ibérica, mais precisamente, onde hoje se situa Portugal.
Aí, nesse solo, formaram-se raízes ancestrais desta
Árvore, que ainda hoje continuam a penetrar a terra. Dela
emana a seiva que alimenta todo o tronco da Árvore e todos
as seus ramos, rebentos e genes, que todos os membros desta família
têm em comum. Depois de bem implantada no solo fértil
das civilizações, os ventos do Pacífico e do
Atlântico se encarregariam de distribuir as sementes pelo
vasto mundo, sementes essas que se enraizariam nalguns solos férteis,
dando origem -com o tempo e com o transplante de outras variedades
culturais e civilizacionais- a outras árvores com identidade
própria, mas com mais ou menos semelhanças com a Árvore
original (Brasil, Angola, Moçambique...), nas quais ainda
corre parte da seiva primitiva e se reconhecem os genes, ou pelo
menos alguns segmentos desses genes comuns. Noutros lugares, as
árvores-filhas ou os seus ramos transplantados não
tiveram o mesmo êxito ou a mesma longevidade porque, ou não
encontraram um solo suficientemente fértil ou as condições
favoráveis ao seu crescimento ou foram destruídas
prematuramente por diversas adversidades.
Outro fenómeno importante e interessante na aventura fantástica
da história desta Árvore é o de os seus ramos,
que a partir dos anos 60 se cortaram voluntariamente do seu tronco
para se incorporarem noutras Árvores-Nações,
noutros continentes e que ainda continuam hoje a ser ramos visíveis,
com as suas flores típicas, apenas ligeiramente modificadas,
mas que, em seu redor, irão originar sementes que se vão
enraizando no solo de adopção dos seus pais, criando,
assim, novas variedades da família vinda da Árvore
inicial. A variedade de cor, de tamanho, de flores e frutos deste
novo grupo da família lusófona é quase infinita,
tão infinita como infinita é a expressão individual
e colectiva do ser humano.
O último fenómeno que me cabe mencionar nesta alegoria
é o meu envolvimento pessoal. Facilmente se pode constatar
que não sendo eu lusitano, mas estrangeiro, como todos os
outros que, como eu, estudam, falam, escrevem e lêem Português,
como língua estrangeira, somos um transplante ou um transplantado
da Árvore? Colocando a questão de outra maneira: ou
me auto-transplantei na Árvore ou deixei-me invadir por um
dos seus ramos, cuja seiva me transformou progressivamente e deu
origem a novos seres, a novas árvores? Acho que os dois pontos
de vista me servem perfeitamente, não sentindo, por isso,
a necessidade de optar por uma ou outra perspectiva.
Montréal,
19 de Janeiro de 2002
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